Harold James
Harold James 30 de janeiro de 2017 às 20:00

Repensar a mobilidade laboral

No mundo de hoje, os trabalhadores devem aprender a aceitar a adaptabilidade e a flexibilidade, em vez de sucumbirem ao ressentimento e à miséria.

O ano passado será lembrado como um período de revolta contra o que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gosta de chamar de "globalismo". Os movimentos populistas têm como alvo "especialistas" e "elites", que agora se questionam sobre o que poderiam ter feito de forma diferente para gerir as forças da globalização e da inovação tecnológica.

 

O consenso emergente é que as pessoas e as comunidades deslocadas por estas forças devem ser compensadas, talvez mesmo com um rendimento básico incondicional. Mas essa estratégia tem muitos perigos. As pessoas que são pagas para fazer actividades insignificantes, ou nada de todo, tornar-se-ão, provavelmente, ainda mais desvinculadas e alienadas. As regiões que são subsidiadas só porque estão a ser prejudicadas podem exigir mais autonomia e depois ficarem ressentidas quando as condições não melhorarem.

 

Assim, as transferências simples não são suficientes. Os seres humanos são engenhosos e adaptáveis, mas apenas em algumas circunstâncias; por isso devemos continuar a procurar oportunidades viáveis que permitam às pessoas participar de forma criativa e significativa na economia. Para isso, devemos olhar para a história e estudar o que aconteceu com os "perdedores" nos períodos anteriores de rápida tecno-globalização.

 

Na Revolução Industrial do final do século XVIII e início do século XIX, a inovação tecnológica, especialmente na maquinaria têxtil, deslocou em massa artesãos qualificados e trabalhadores artesanais, deixando-os privados de qualquer rede de segurança real para amortecer o golpe. Mas, analisando em retrospectiva, não é óbvio que os governos pudessem ter feito alguma coisa para compensar os tecelões silesianos ou os artesãos rurais irlandeses. Embora fossem muito trabalhadores, os seus produtos eram de qualidade inferior e mais caros do que os que estavam a ser fabricados nas novas fábricas.

 

Em vez disso, muitos trabalhadores deslocados emigraram - muitas vezes longas distâncias através dos oceanos - para lugares onde poderiam assumir novas formas de trabalho e até mesmo prosperar. Como mostra o brilhante livro de Thomas K. McCraw, The Founders and Finance, a tradição de empreendedorismo dos Estados Unidos é um testamento para os migrantes inventivos.

 

Para ver os benefícios da migração, basta-nos olhar para Kallstadt, uma cidade de pequenos agricultores no sudoeste da Alemanha, onde Friederich (Fred) Trump - avô de Donald Trump - nasceu a 14 de Março de 1869. Ele mudou-se para os EUA em 1885 (a sua esposa também nasceu em Kallstadt, e casou com ela lá numa visita de retorno em 1902). O pai do fundador da gigante Heinz (agora Kraft Heinz), Henry John Heinz, também nasceu em Kallstadt, em 1811, e emigrou para a Pensilvânia na década de 1840, para escapar de uma crise agrícola.

 

Mas um século depois, a emigração deixou de ser uma opção para pessoas cuja actividade económica se tornou subitamente obsoleta, principalmente porque a maioria dos países impôs barreiras mais duras contra a migração. Na primeira metade do século XX, os produtores mais vulneráveis eram os agricultores rurais, de pequena escala, que não conseguiam competir com a expansão da produção de alimentos noutras partes do mundo.

Isto aconteceu, sobretudo, com os agricultores europeus, que responderam ao seu súbito empobrecimento e falência com o mesmo tipo de políticas populistas que aparecera, de forma tão proeminente, em 2016. Eles formaram e votaram a favor de movimentos políticos radicais que misturaram utopia económica e social com um nacionalismo cada vez mais militante. Estes movimentos contra a globalização, que culminaram na Segunda Guerra Mundial, ajudaram a destruir a ordem internacional contemporânea.

 

No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, os políticos dos países industrializados encontraram uma solução diferente para o problema dos agricultores deslocados: subsidiaram a agricultura, suportaram os preços e protegeram o sector do comércio internacional.

 

Nos Estados Unidos - que, de forma reveladora, evitaram o impulso nacionalista - esse esforço já havia sido incorporado na Lei de Ajustamento Agrícola de 1933. Na Europa, a manutenção dos preços e o proteccionismo supranacional constituíram a base política da integração europeia na Comunidade Económica Europeia, que se tornaria a base da União Europeia. Até à data, o orçamento da UE está dedicado de forma esmagadora à Política Agrícola Comum, ao sistema de subvenções e outras medidas de apoio ao sector.

 

O proteccionismo agrícola funcionou bem por duas razões. Em primeiro lugar, os produtos agrícolas dos EUA e da Europa neste novo regime não eram fundamentalmente inúteis, como eram os tecidos artesanais e tecnicamente inferiores durante a Revolução Industrial. Os produtores americanos e europeus ainda alimentavam as populações dos países ricos, mesmo que o fizessem a um custo maior do que o economicamente necessário. Em segundo lugar, e mais importante, os trabalhadores foram capazes de mudar de profissão, e muitos mudaram-se do campo para empregos atractivos e bem pagos na indústria e serviços urbanos.

 

Naturalmente, hoje, a ameaça colocada pela globalização estende-se precisamente a esses "novos" empregos. A Europa e os EUA tentam há muito apoiar os "perdedores" na indústria e nos serviços através de vários programas de pequena escala que, de facto, não beneficiam muitos trabalhadores. Por exemplo, o programa norte-americano de Ajustamento ao Comércio, que foi aumentado ao abrigo da Lei de Ajustamento ao Comércio e à Globalização de 2009, e o Fundo de Ajustamento à Globalização da UE são medidas pequenas, complexas e dispendiosas para compensar os trabalhadores deslocados.

 

Como resultado, muitos dos dilemas com que se confrontaram os responsáveis políticos do século XIX são os mesmos que se colocam aos seus homólogos hoje. Ninguém pode negar que é um desperdício de recursos humanos e naturais sustentar ocupações que criam bens indesejados ou obsoletos. Gerações anteriores tiveram a emigração como uma válvula de escape, e muitas pessoas hoje, especialmente no sul e leste da Europa, estão a responder às fracas condições económicas locais de forma semelhante.

 

A migração interna para centros metropolitanos dinâmicos ainda é uma possibilidade, especialmente para os jovens. Mas esse tipo de mobilidade - que está a aumentar na Europa moderna, mas não nos EUA - requer competências e iniciativa. No mundo de hoje, os trabalhadores devem aprender a aceitar a adaptabilidade e a flexibilidade, em vez de sucumbirem ao ressentimento e à miséria.

A forma mais importante de mobilidade não é física; é social ou psicológica. Infelizmente, os EUA e a maioria dos outros países industrializados, com os seus sistemas de educação rígidos e estupidificantes, não conseguiram preparar as pessoas para essa realidade.

 

Harold James é professor de História e Relações Internacionais na Universidade de Princeton e membro sénior no Center for International Governance Innovation.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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