Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 25 de Outubro de 2016 às 19:53

Reviver o passado em Downing Street

Há quem pense que a política é por definição uma actividade progressista e que um "político conservador" é uma impossibilidade ontológica, uma contradição nos termos insanável.

Se o negócio da política é a constante promessa de mudança, então o conservadorismo, por se amarrar ao que há (ou ao que houve), é algo que está fora desse comércio. É uma posição apolítica (ou mesmo antipolítica) cuja utopia - a existir alguma utopia no conservadorismo - será a ausência da própria política.

 

Eu, que sou um "conservador", e que até tenho intervenção política, reconheço que sou mais dado ao cepticismo das perguntas do que à audácia das respostas. O conservadorismo não é um plano de acção. Não é uma cartilha ou uma teoria. Não é uma ideologia. Os conservadores não têm uma doutrina fundadora e unívoca, racional e acabada, que possam aplicar indiscriminadamente em todo o mundo. Confiam antes noutro tipo de considerações, mais voláteis e porosas, menos "científicas": o senso comum, o temperamento, a natureza humana, a moral, a tradição, a comunidade, a experiência. Têm, quando muito - como se diz na literatura sobre o tema -, uma "ideologia posicional", porque precisam de uma situação, de uma realidade e um local concretos, para articularem ideias políticas.

 

E o que fazem os conservadores com essa realidade? O seu instinto é protegê-la. A "predisposição conservadora" (como celebremente lhe chamou Michael Oakeshott) prefere tirar partido das possibilidades do presente do que ansiar por passados irrecuperáveis ou futuros incertos (isso é para reaccionários e revolucionários, respectivamente). Serão os conservadores, por isso, seres politicamente inúteis? Bem pelo contrário. É no apego ao presente que está o seu grande contributo para o governo das comunidades.

 

Em primeiro lugar, porque quem gosta de onde está é alguém especialmente exigente com a mudança, alguém que precisa sempre de prova absoluta de que aquela é indispensável. Como diz João Pereira Coutinho, o papel de um conservador é ser "a pedra na engrenagem". Uma sociedade democrática, em que o poder deve ser um exercício limitado, não sobrevive sem este tipo de cepticismo.

 

Em segundo lugar, porque um conservador percebe que a única ordem social que interessa é a ordem espontânea. Só ela, por ser genuína, é realmente duradoura. E por isso sabe que é preciso não só aceitá-la em toda a sua diversidade como proteger as instituições e os valores políticos que a sustentam - a moderação, o pluralismo, o cosmopolitismo, as liberdades individuais, cívicas e económicas, a democracia, o parlamentarismo.

 

É pela sua contemporaneidade instintiva e radical que um conservador se define. Sem ela, não serve politicamente para nada.

 

Tenho-me lembrado desta forma de ver o conservadorismo, que é muito inglesa, a propósito dos primeiros meses do novo Governo britânico. Existem sinais, para já essencialmente retóricos, de que o Partido Conservador de Theresa May tem para o Reino Unido pós-Brexit a visão de uma sociedade proteccionista, corporativa, fechada e socialmente estanque, dirigida por um Estado com as políticas intervencionistas típicas da época pré-globalização.

 

Theresa May gostaria de conduzir o Reino Unido a um mundo de glória nacionalista, com políticas que dependem de um isolamento que hoje é impossível. O futuro que May quer é o passado. E o passado, como diz LP Hartley em "The Go-Between", o romance que Harold Pinter e Joseph Losey adaptaram ao cinema, é ele próprio um país estrangeiro. Boa viagem.

 

Advogado

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