Fernando  Sobral
Fernando Sobral 16 de fevereiro de 2017 às 21:05

Rosa Luxemburgo e a Europa a duas velocidades

Parece ser evidente que Wolfgang Schäuble, o poderoso ministro alemão das Finanças, deseja colocar de vez a Grécia fora da Zona Euro.

Em 1913, a revolucionária Rosa Luxemburgo analisava friamente a "loucura" do capitalismo moderno, na altura transvertido de imperialismo, enquanto falava da situação concreta do Egipto: "Um empréstimo substituía-se rapidamente a outro; os juros dos empréstimos anteriores eram pagos através de novos empréstimos, e os empréstimos gigantescos contraídos junto ao capital industrial inglês e francês eram pagos por meio de capitais obtidos por outros empréstimos contraídos junto de Inglaterra e França. Na realidade, o capital europeu, enquanto a Europa abanava a cabeça e se sentia estupefacta perante o esbanjamento insensato de Ismail, fazia no Egipto negócios fantásticos e sem precedentes, que eram para o capital uma moderna versão das vacas gordas egípcias referidas pela Bíblia." Esta frase, mais de 100 anos depois, poderia aplicar-se em grande parte aos dilemas que neste momento atravessam a União Europeia. Não são para levar levianamente as sombras que voltam a cerrar-se sobre os céus da Grécia. Parece ser evidente que Wolfgang Schäuble, o poderoso ministro alemão das Finanças, deseja colocar de vez a Grécia fora da Zona Euro, já que pretende o impossível: um crescimento enorme acompanhado de mais austeridade. Tudo aquilo que se revela uma oferta de cicuta para a economia e a sociedade grega. O problema é que isso faz parte do sentimento alemão (e dos países que alinham com Berlim) no que se refere ao Sul da Europa. Por isso, quando se tenta derrubar Mário Centeno seria bom reflectir sobre o que volta a estar em causa na Europa.

 

A este radicalismo alemão pode juntar-se o sentimento, cada vez mais hegemónico no seio dos países do núcleo duro da União Europeia, que deseja a criação de uma organização que funcione a duas velocidades, algo que torpedeia aquilo que era o sentimento original do Tratado de Roma. Tudo aponta para que esses países do primeiro grupo da Europa decidam mais cooperação e integração nos sectores financeiro, de impostos e segurança, deixando os países periféricos (onde, claro, se integraria Portugal) numa segunda divisão europeia. Nesses sectores políticos pensa-se que esta é a melhor forma de responder ao populismo, dispensando pensar em crescimento económico sem regras de austeridade tão severas ou noutras formas de olhar para a emigração. Alguns países parecem desconfiar deste pensamento, porque colocaria os países periféricos numa posição de servos das grandes decisões europeias, sem poder ou autonomia para as desafiarem, especialmente devido à asfixia económica e financeira a que estariam submetidos. Fala-se que os países que poderiam fazer parte deste "círculo íntimo" da primeira divisão europeia seriam a Alemanha, Itália, França, Bélgica, Luxemburgo e Holanda. Angela Merkel já disse este mês: "Aprendemos da História dos últimos anos que haverá uma União Europeia a diferentes velocidades, e que nem todos participarão a toda a hora nos diferentes passos da integração." Este debate não está a ser travado em Portugal onde, como sempre, se discutem telenovelas (como as de Mário Centeno) e não se fala do essencial. E esse é, cada vez mais, o lugar que Portugal pode vir a ter nesta Europa que continua cega rumo ao abismo.

 

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comentários mais recentes
Rado Há 1 semana

E a Áustria onde fica?

Mr.Tuga Há 1 semana

A verdade é que começa a faltar paciencia para aturar os gregos...

Querem perdoes e alivios, mas aumentam a despesa do estado... Não faz sentido nem é justo para os restantes paises do sul da EEuropa.