Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 20 de julho de 2017 às 19:27

Saia justa 

Neste momento, os dados disponíveis nos EUA e Europa apontam para o sucesso da opção política adotada. A economia cresce a ritmos saudáveis, o mercado de trabalho revela pujança. Apenas a inflação desilude.

No auge da crise financeira, as autoridades monetárias nos EUA e área do euro, confrontadas com o mau funcionamento do mecanismo de transmissão da política monetária, decidiram adotar medidas não-convencionais; concretamente, programas de aquisição de ativos financeiros. Assim, os bancos centrais concretizaram o seu objetivo de redução das taxas de juros ao longo do espectro temporal e asseguraram a repassagem a toda a economia. Segundo o Banco Central Europeu (BCE), o alargamento do programa de compra de ativos a dívida de empresas justificou-se pela necessidade de baixar custos de financiamento imediatamente para as empresas com melhor qualidade creditícia, forçando o contágio às restantes classes de risco.

 

Neste momento, os dados disponíveis nos EUA e Europa apontam para o sucesso da opção política adotada. A economia cresce a ritmos saudáveis, o mercado de trabalho revela pujança. Apenas a inflação desilude. A recente subida de preços afigura-se temporária e as projeções apontam para revisões para baixo. Com base num enquadramento macroeconómico favorável, a Reserva Federal (Fed) interrompeu o programa de compras (2014) e iniciou o ciclo de subida de taxas diretoras (2015), discutindo agora os próximos passos, os quais poderão incluir a redução do balanço - ou seja, abandono do reinvestimento dos fundos associados aos reembolsos. Até agora, o movimento de normalização da política monetária nos EUA, muito embora tenha conduzido à expetável subida de taxas de juros ao longo das várias maturidades e redução da inclinação da curva de rendimentos, não provocou perturbação no mercado.

 

Na Europa, o processo de normalização da política monetária está mais atrasado (também foi inaugurado mais tarde). Por outro lado, a execução do programa defronta-se com desafios específicos de execução. O BCE autolimitou as compras por título ao máximo de um terço do saldo vivo. Em países com menos dívida transacionável ou reduzidas necessidades de financiamento, esta restrição já se tornou ativa. No caso português, o BCE parece ter encontrado um equilíbrio estável - realiza compras mensais que correspondem a cerca de um terço das emissões médias mensais. As autoridades monetárias inclinam-se para a manutenção do programa além de 2017, trilhando um caminho caracterizado pela minimização do fator surpresa. Por conseguinte, o abandono de medidas não-convencionais antecipa-se como progressivo e bem comunicado. Não obstante estas preocupações, o BCE confronta-se com desafios operacionais significativos no caminho da normalização. Com efeito, nos últimos dois meses emergiram sinais que o limite de compras terá começado a ser ativo na Alemanha. Doravante, o banco central poderá debater-se com escassez de títulos também no universo das maiores economias da área do euro, circunscrevendo a extensão do programa. Outro desafio relevante consiste em garantir suficiente gradualismo na subida de taxas, evitando uma apreciação fulgurante do euro, a qual poderá pôr em perigo a consolidação da recuperação económica. Convém igualmente não olvidar que o presente sentimento pró-reformista muito beneficia do sólido crescimento da economia, sendo imprevisíveis as consequências de um súbito arrefecimento económico nas propostas reformistas em discussão e implementação.

 

Economista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Bento 21.07.2017

Usas saias??? E... tb ?.

ZéDosAnzóis 21.07.2017

A "brincadeira" colocou foi, a nível global, a dívida pública e privada a níveis nunca antes sequer imaginados. Veremos onde vai acabar o "brilhante desempenho" dos bancos centrais...

Beruno 21.07.2017

li um artigo num site economico dos states em que o autor defendia que a fed devia passar a comprar apenas divida de longo prazo, 10 anos ou mais, para que a curva de yield fosse mais horizontal (diminuindo a yield a longo prazo e aumentado ligeiramente a de curto prazo). o objectivo era devolver rentabilidade às empresas que investem em divida de mais curto prazo, 1, 3 5 anos, tal como os bancos, seguradoras, fundos de pensoes. é uma ideia que acho que faria sentido, e seria uma ajuda indireta à banca

gatogato 21.07.2017

A única inflação boa é a inflação zero.