Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 07 de junho de 2017 às 00:01

Saída do PDE é positiva, mas…

A saída do Procedimento por Défice Excessivo (PDE) é positiva. Mas fundamental será não voltarmos ao mesmo. Quando me lembro que desde a revolução o país já teve três resgates, todos os cuidados são poucos.

O esforço de consolidação das contas públicas tem de continuar. Há uma tendência neste país para o despesismo, quando a situação económica é favorável. Isso é um tremendo erro e os portugueses pagaram-no bem caro nos últimos anos.

 

Esperemos que o despesismo de 2006-2011 e acima de tudo as consequências extremamente negativas que teve e que levaram o país ao resgate não se repitam para bem da atual e das futuras gerações.

 

O atual bom ambiente económico é devido a um melhor enquadramento externo. O crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2,8% em termos homólogos foi baseado fundamentalmente nas exportações, tendo as receitas do turismo sido determinantes. O investimento, com a aceleração da canalização dos fundos estruturais, também contribuiu, mas em menor escala.

 

O turismo é o nosso "petróleo". Mas todos nós sabemos que o turismo é uma atividade cíclica, com períodos positivos e negativos, pelo que, a economia portuguesa tem de ter pilares de sustentação do crescimento. E um desses pilares são as reformas estruturais.

 

Relativamente ao turismo e dado que este país vive muitas vezes de excessos, será bom não "matar a galinha dos ovos de ouro" ou dito de outra forma, "não se deve ir com muita sede ao pote". O crescimento ou a manutenção do fluxo turístico só será efetivo se a qualidade dos serviços prestados não se degradar, caso contrário, os efeitos serão nocivos.

 

Quanto às reformas estruturais que urge fazer ou continuar são a laboral, a fiscal, a justiça e sobretudo criar um modelo solvente para a Segurança Social. A minha geração está hoje a pagar as reformas dos nossos pais, mas tenho dúvidas de que as contribuições dos nossos filhos cheguem para pagar as nossas reformas.

 

Portugal tem um grave problema demográfico. A pirâmide de idades é quase um triângulo invertido. Portugal é um dos países do mundo com a média etária mais elevada. A população ativa face aos reformados representa cada vez menos. Portanto, temos um problema grave em termos do financiamento do sistema de Segurança Social a prazo. Como resolvê-lo? Com crescimento económico.

 

Mais crescimento económico significa mais emprego, mais população ativa a descontar para a Segurança Social, mais encargos sociais das empresas e menos subsídios de desemprego para pagar. Caso contrário, terá de ser o Orçamento do Estado a financiar e aí teremos mais défice e mais dívida pública.

 

Podem ser ainda tomadas outras medidas como aumentar impostos sobre produtos de luxo, desde que fique claro que essas receitas serão canalizadas para a Segurança Social, mas a chave é o crescimento económico.

 

Portugal necessita de atrair investimento produtivo para outras áreas que não apenas o imobiliário. Para isso, Portugal tem de cativar os investidores. Como? Evidenciando a capacidade técnica dos nossos quadros, aumentando a produtividade que é das mais baixas na Europa (os portugueses trabalham mais horas, mas tal não se repercute nos índices de produtividade) e ter um IRC competitivo.

 

Portanto, como há dias o ministro das Finanças disse: ainda há muita coisa para fazer!

 

Economista

 

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Ponderado Há 2 semanas

Basta crescer um pouco acima dos 2% e começam logo os despesistas que nos levaram a várias bancas-rotas a aparecer a exigir isto e aquilo. A querer originar despesa pública. A fazer greves que só prejudicam a já fraca produtividade, quando Portugal é comparado com os seus parceiros. Enfim!...

Paulo Há 2 semanas

Como é que o crescimento económico pode ser sustentável se muitas reformas estão por fazer? Crescemos à custa de fatores cíclicos e não estruturais. Onde está o investimento produtivo que crie emprego de forma evidente? O autor tem toda a razão. O importante continua por fazer!

Lurdes Há 2 semanas

Quando é que estes velhos do Restelo desaparecem com os seus "mas", quem tem medo que desapareça, Portugal vai crescer e muito. Precisamos é de correr com esta gente do "mas" que ainda não percebeu que só atrapalha.

Joãoc Há 2 semanas

A evolução demográfica é uma dor de cabeça. E quando se vê jovens a emigrar, tendo nós investido na educação deles mas os descontos sobre o salário irem para outros países, é duro e muito negativo. Colocar a demografia a evoluir normalmente é a reforma estrutural mais difícil.

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