Edson Athayde
Edson Athayde 25 de setembro de 2017 às 21:05

Sangue, suor e lágrimas

O senhor Oswaldo a tudo foi dizendo que não. Ao fim, tomou coragem e num tom firme revelou: "Doutor, peço desculpas, mas é que eu não aguento mais o mundo da publicidade."

Contaram-me a história como verdadeira. Pode ser, pode ser. Teria acontecido numa grande agência brasileira.

 

O senhor Oswaldo era o mordomo da empresa. Trabalhava lá há mais de 30 anos. Já pertencia ao mobiliário, mais do que muitas mesas e cadeiras.

 

Ele era uma simpatia. Um paz d'alma. Sempre a sorrir e a dizer "bom dia". Frequentemente ficava na sala de reuniões durante as grandes apresentações. Um café quente ou uma água fresca nos momentos certos poderiam ser definidores dos humores dos clientes.

 

O senhor Oswaldo nunca faltou ao serviço. Tinha uma saúde de ferro. A farda sempre limpa e passada a ferro. Enquanto funcionário, era o sonho de qualquer companhia.

 

Um dia, o senhor Oswaldo entrou na sala do presidente da agência e perguntou se ele tinha tempo para uma conversinha.

 

O senhor Oswaldo, olhos baixos, voz rouca, pediu demissão.

 

O presidente não sabia o que dizer. Apalermado, perguntou se alguém tinha faltado ao respeito, se era uma coisa de ordenado, se havia algo que pudesse fazer.

 

O senhor Oswaldo a tudo foi dizendo que não. Ao fim, tomou coragem e num tom firme revelou: "Doutor, peço desculpas, mas é que eu não aguento mais o mundo da publicidade."

 

Oswaldo, o senhor do café, estava a sofrer de stress publicitário.

 

Para quem não sabe, trabalhar numa agência, em qualquer agência, é uma montanha-russa de emoções. Os prazos são quase sempre impossíveis, há muita subjetividade na avaliação do que é feito, os processos tendem ao caos.

 

Sim, existem outros ambientes de trabalho mais calmos. Ninguém é obrigado a ser publicitário, se vem para essa área é porque deveria gostar de viver com pouca rotina e doses cavalares de sangue, suor e lágrimas.

 

Como tudo no mundo hoje em dia, o enunciado anterior já não corresponde à realidade.

 

Leio no jornal Meio & Mensagem (publicação paulista dedicada ao sector publicitário) que os jovens estão a questionar o modelo tradicional de trabalho nas agências.

 

Por exemplo: "O culto à produtividade é prejudicial para a dinâmica de criação das equipes, de acordo com criativos que participaram do debate", diz o M&M.

 

Outra afirmação: "Este é um mercado onde quem é ansioso cresce. É um padrão o cara ser ansioso e ser avaliado como um profissional melhor e mais competente, o que é muito grave."

 

Percebo os pontos, embora não veja como defeito existir um culto à produtividade. Qual a opção? Que empresa quer ser menos produtiva? Que bom profissional pode sentir-se feliz ao fazer ronha, passar mais tempo na conversa e no cigarro do que a fazer as suas tarefas?

 

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Mais um vez, se quer vida calma vá trabalhar num spa. Se a sua empresa anda a explorá-lo, mude de empresa. Sei que nem sempre isso é fácil, mas impossível também não é.

 

Não é, senhor Oswaldo?

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "A única pessoa do mundo que ganha dinheiro à fresca enquanto os outro suam é o dono do banho turco."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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