Fernando  Sobral
Fernando Sobral 27 de Outubro de 2016 às 21:05

Schauble e a tentação alemã

Quando as coisas não correm bem para a Alemanha, o seu gentil ministro das Finanças, Wolfgang Schauble, costuma escolher o saco de pancada do costume: Portugal. É uma forma, para ele óbvia, de iludir os problemas de Berlim e da Europa que tutela.

Desta vez escolheu uma visita à Roménia para incendiar a pradaria: "Portugal foi muito bem-sucedido até ao novo Governo. Depois das eleições (…) (o novo Governo) declarou que não iria respeitar aquilo que tinha sido acordado pelo anterior". A deselegância até cai mal aos próprios membros do anterior Governo português. Parece que Schauble é o pai tirano da Europa: só se pode comer à mesa depois dele dar ordem. É uma sensação de subordinação muito desagradável. Mas que mostra a forma como ele e o núcleo duro do poder alemão olha para a periferia, sobretudo a do sul. Não é a primeira vez que Schauble faz isto: já quando surgiram as primeiras notícias perigosas para o Deutsche Bank, ele carregou sobre Portugal para desviar as atenções. Agora ainda deve ter mais espinhas na garganta: a estratégia da Alemanha de eleger a "sua" búlgara, em detrimento de António Guterres, deve ter criado azia em Berlim. E, assim, lá se serve mais uma dose de óleo de rícino contra Portugal.

 

Começa a ser enervante este olhar da Alemanha sobre Portugal. Como se fossemos uma província tutelada por Berlim. Mas é o que temos enquanto existir esta União Europeia e este Tratado Orçamental. Nestes momentos apetece recuperar o grande político do século XIX, Andrade Corvo, que opinava sobre a hegemonia dentro da Europa: "Nessa imensa confusão de ideias, nesse esquecimento do justo e do honesto, nesse entorpecimento assustador da consciência humana, nesse lutar cego da cobiça e do egoísmo contra o direito e a verdade, está um imenso perigo para todas as nações grandes ou pequenas (…). No meio do perigo universal, é imenso o perigo para as nações pequenas. Onde a força domina, só os fracos são sacrificados à cobiça brutal dos fortes". Andrade Corvo apostava, face à hegemonia do centro europeu, que vislumbrava e temia, uma relação forte com Espanha e na posição de Portugal no Atlântico, com ligação preferencial aos EUA. Os dados mudaram, mas o caminho desta Europa, centrada sobre si mesma e sem estratégia visível, seja na economia, na política, no sector da defesa ou na área social, parece exigir uma reflexão profunda da sociedade portuguesa. Que não se esgota nas questões ideológicas ou de guerrilha por causa das "medidas estruturais" ou do défice.

 

O que as palavras de Schauble implicam é a necessidade de Portugal ter uma voz forte que o ponha a salvo de conversas de café que trespassam para o domínio público e causam sempre danos profundos na reputação do país. Mais do que "politique", as afirmações de Schauble são humilhantes e de uma deselegância absurda. Não se imagina um ministro português a fazer comentários desde tipo sobre a relação do centro político alemão e o seu sector bancário, a austeridade até ao fim, ou o estado calamitoso dos seus "landesbanks". Como reagiria a Alemanha? Custa continuar a assistir a este espectáculo recorrente de Schauble, que usa Portugal para esconder os vícios públicos do executivo alemão e do seu sector financeiro.

 

Grande repórter

A sua opinião3
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

Esse tipo pensa que é o ministro das colonias e não aprendeu o significado da palavra ingerencia. Tanta coisa por importancia ministros e na verdade não passam duns labregos

valter duarte Há 1 semana

A Alemanha está de muito boa saúde comparada com o restante horizonte de economias, portanto não precisa de implicar com Portugal para desviar as atenções dos alemães. Diz-se que um homem normal aprende com os erros próprios, o homem sensato aprende com os erros dos outros, e o homem burro?

katia Há 1 semana

Schauble, se precisasse do Estado português para uma cadeira de rodas, falaria de maneira diferente. O mundo está errado. De cadeira de rodas não lhe davam emprego na Dé Cá Tlõ em Portugal e é ministro na Alemanha? Este mundo é uma palhaçada.