Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 12 de dezembro de 2016 às 19:20

Ser e estar

Hoje, a questão prioritária é a dívida e como estancar as fontes da dívida para poder ter investimento e crescimento.

A FRASE...

 

"Enquanto esta solução funcionar, Portugal evita o populismo de esquerda, que afecta sobretudo os nossos parceiros do Sul."

 

Teresa de Sousa, Público, 11 de Dezembro de 2016

 

A ANÁLISE...

 

A dificuldade em distinguir entre "ocupar o poder" e "exercer o poder" quando se observam os assuntos da política aparece com uma frequência surpreendente. É como se a diferença entre estar e ser não tivesse relevância para os que observam a política. Ou como se a política fosse um jogo virtual, em que os protagonistas vivem as histórias que eles próprios inventam.

 

Quem observa fica fascinado com os jogos de corpos e de sombras, não quer ver que os efeitos de luzes escondem corpos e produzem sombras em função das conveniências - um artifício que se conhece desde a caverna de Platão e que hoje se repete nas produções da comunicação social. Foi sempre uma mistificação a afirmação de que "em política, o que parece é", pois, em política, o que é nunca é o que é mostrado para ser o que parece.

 

Quem ocupa o poder pode impedir acontecimentos e revelações, mas não exerce o poder - isto é, não conduz estrategicamente a sociedade e, sobretudo, desistiu de a modernizar. E quem ocupa o poder para impedir o inevitável ou para evitar revelações condena-se a ser arrastado e afastado pela realidade da política. Uma solução política que funcione e evite o populismo de esquerda (ou de direita) só existe se exercer o poder - e isso exige que responda à questão prioritária dessa época. Há quatro décadas, a questão prioritária era o fim do império e o que seria o modelo de desenvolvimento depois de perdida essa escala. Hoje, a questão prioritária é a dívida e como estancar as fontes da dívida para poder ter investimento e crescimento.

 

Quando o populismo de esquerda propõe a reestruturação da dívida, não pode ignorar que isso só é possível se tiver estancado as fontes da dívida - porque depois de reestruturada uma dívida, não haverá acesso a nova dívida. O que parece não é o que é - é mesmo o oposto do que parece.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Anónimo 13.12.2016

Este não é dos melhores. Mas muito bem escrito e, sobretudo, muito lúcido.

E meu Deus, faltou e falta tanta lucidez neste país. A começar pelo pior que aconteceu desde o 25 de Novembro, os 10 anos de cavaquismo, que no fundo são a origem da nossa desgraça actual (acima de tudo, mas longe de esgotar o enorme rol de desgraças, a louca política cambial seguida ...).

Uma crítica contudo. Os artigos são escritos num estilo excessivamente rebuscado, sobretudo para aqui.