Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 18 de janeiro de 2017 às 20:35

Ser previdente

Tudo visto e ponderado, se outras novidades de propostas merecedoras de atenção não surgirem, a evolução do debate e de mais acontecimentos em torno do Novo Banco permite fazer algum balanço.

Em primeiro lugar, a força da ideia transmitida pelo ministro das Finanças de que não haverá garantias de Estado. Na verdade, alguém oferecer 750 milhões de euros por um banco, como este, e pedir ao vendedor que se responsabilize por eventuais 2 mil milhões, seria sem dúvida um grande negócio. Nesse caso, apetece perguntar porque é que o Estado venderia um banco pelo qual receberia 750 milhões de euros, tendo ainda de pagar 2 mil milhões, que são contingências e que dependem de decisões ainda não tomadas, nomeadamente a nível judicial? Isto é o que se chama comprar sem risco, mesmo com as eventuais necessidades de recapitalização.

 

Acresce ainda que em caso de nacionalização, mesmo que provisória, os 3,9 mil milhões de euros do início do Fundo de Resolução também se "perderiam", digamos assim. Ou o Estado assumiria a responsabilidade por eles? Uma responsabilidade que, de certa maneira, sempre foi sua, dado o aval do Estado. Por outro lado, há também o argumento compreensível de que uma qualquer nacionalização poderia impressionar mal os mercados. Ora, como sabemos pelos juros da dívida e da operação que foi feita a dez anos, convém não forçar. O argumento da dificuldade das negociações com Bruxelas, com franqueza, já não valorizo tanto nas presentes circunstâncias e, nomeadamente, neste ano de 2017.

 

Assim sendo, parece que a melhor solução será a prorrogação do atual regime de resolução, continuando o Novo Banco, pelo menos por mais um ano, a ser um banco de transição. É uma opção razoável e que permite ganhar mais balanço e mais força num tempo em que se está a tratar da consolidação do sistema financeiro e, especialmente, dos bancos de base territorial portuguesa. A OPA do BPI concretiza-se e formaliza-se, o aumento de capital para a recuperação do BCP segue o seu curso, a Caixa Geral de Depósitos tem a sua recapitalização garantida e a nova administração já autorizada.

 

Com toda a franqueza, quero crer que um novo ano permitirá ao Novo Banco ganhar mais músculo, mesmo que se torne necessária alguma recapitalização. Penso que o assunto precisa manifestamente de tempo, evitando as tais soluções apressadas. Não vale a pena ninguém agarrar-se a atitudes de fixação nas posições até aqui defendidas. Que todos façam o seu balanço como estou aqui a fazer, resumidamente.

 

Admiti a hipótese de nacionalização, via que nunca pensei defender, tal é o meu repúdio pela venda em parcelas do Novo Banco. Alguém disse, num espaço televisivo no domingo, que os que admitiam agora a nacionalização do Novo Banco já tinham defendido a nacionalização do BPN. Por mim, não enfio essa touca. Dou, no entanto, razão ao argumento em que é sempre perigoso o setor financeiro e o Estado misturados, porque quando o Estado entra, pelo menos em Portugal, nunca se sabe como a história acaba e, principalmente, com quantos zeros acaba ao lado de um qualquer outro número. Escolha-se a opção mais equilibrada, mais sensata e mais prudente.

 

Advogado

 

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comentários mais recentes
Comentador do Óbvio 19.01.2017

Caro Sant'Anna,
O seu único tema é o (velho) NB... espero que a SCML nunca venha a ser acionista.
A recuperação dos outros bancos não ajudará o NB - os outros ficarão mais competitivos e agressivos...
Recuperações como a do Lloyd's só no UK: acha que cá se pode despedir como lá?

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