Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 08 de fevereiro de 2017 às 20:27

Significativo e elucidativo

As mudanças anunciadas no BPI são significativas e elucidativas. O La Caixa passou a ter 84,5 por cento do capital do banco, o que é também, em si, significativo e elucidativo.

É muito raro nos tempos de hoje o acionista principal de uma instituição financeira deter uma tal percentagem de capital. Mas com tudo o que se passou neste processo e com os antagonismos existentes com os outros acionistas mais relevantes, é compreensível que tenha havido a vontade das partes envolvidas de pôr termo a essa coexistência. Elucidativas e significativas são também as mudanças nos órgãos sociais, nomeadamente no conselho de administração e na comissão executiva. Fernando Ulrich sai de presidente executivo e é substituído pelo cidadão espanhol, Pablo Forero. Ulrich passa a presidente do conselho de administração, cargo que até agora estava confiado a Artur Santos Silva. Este, por sua vez, passará a presidente honorário do BPI. Houve também mudanças nos administradores executivos e, pela minha parte, gostava de fazer uma referência especial a Maria Celeste Hagatong, que sempre acompanhou de modo particular o trabalho das autarquias locais e cujo trabalho tive oportunidade de apreciar mais de perto enquanto presidente das Câmaras da Figueira da Foz e de Lisboa.

 

Nos novos administradores executivos existem também outros cidadãos espanhóis, nomeadamente Ignacio Rendueles e Juan Fuertes. O que aconteceu no BPI nem é bom nem é mau, é um tempo novo. Mas cada tempo tem as suas explicações e as suas consequências. E este tempo novo no BPI significa que passou a ser um banco de capital espanhol sediado em Portugal. Há quem fique muito contente com estas mudanças e com as crescentes tomadas de posição por capital estrangeiro na banca portuguesa. Sou um defensor do projeto europeu (não exatamente deste atual, que é quase um não projeto…), da liberdade de circulação de capitais, da livre iniciativa, mas também da coesão económica e social. Isso não me impede, tal como cidadãos e governantes de outros países, de preferir que os centros estratégicos de decisão, nomeadamente instituições financeiras, fiquem nas mãos de portugueses ou detidos por capital português. Prefiro, mas procuro compreender quem não prefere ou quem lhe é indiferente.

 

O sistema financeiro português continua a recompor-se, mas, como era inevitável, é uma recomposição com muitos custos e de consequências complexas para o tecido económico português.

 

Um artigo sobre o BPI e sobre estas mudanças deve forçosamente incluir uma palavra especial para o trabalho de Fernando Ulrich ao longo de todos estes anos em que teve a responsabilidade executiva principal. Lidou com muitos governos, enfrentou muitas dificuldades, atravessou períodos de muita turbulência na economia portuguesa. Senhor de um modo de estar muito próprio, nunca quis deixar de ser frontal e desassombrado e, no geral, nunca viu a competência da sua ação ser contestada. Sabe bem reconhecer o mérito de um bom gestor financeiro, por sinal, português.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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Mr.Tuga Há 2 semanas

Só "elogios" aos xeo`s e administradores, como convêm, excepto para aqueles que vão sofrer na pele a mudança: os trabalhadores!