Luis Nazaré
Luis Nazaré 10 de outubro de 2017 às 19:55

Sinais de fogo 

O mundo e os seus hábitos globalizam-se, numa espiral aparentemente sem retorno, enquanto os egoísmos nacionais recrudescem. Legitimamente, sim - é este o drama.

Sinais de fogo, os homens se despedem,

 

exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.

 

E o vento que essas cinzas nos dispersa

 

não é de nós, mas é quem reacende

 

outros sinais ardendo na distância,

 

um breve instante, gestos e palavras,

 

ansiosas brasas que se apagam logo.

 

(Jorge de Sena, 1979) 

  1. Haja o que houver, Espanha não voltará a ser a mesma após o referendo de 1 de Outubro. Se a independência da Catalunha for avante, contra tudo e contra todos, o rastilho secessionista acenderá novos fogos na Península e, certamente, noutras partes do Velho Continente. Mas se um qualquer assomo de consciência ou de pragmatismo mantiver o status quo, as brasas não se apagarão. Manter-se-ão latentes, num borralho malsão, que nem a previsível generosidade financeira de Madrid poderá apagar. 

Diz-se que as paixões mal resolvidas são como os cães vadios - por mais que se tente escorraçá-los, sempre regressam. Os traumas da História também. Por maioria de razão, numa Catalunha que perdeu todas as guerras contra Castela, apesar de ter conseguido manter um confortável estatuto de autonomia e bem-estar à escala peninsular. Talvez por isso mesmo, por motivos marcadamente económicos, mais do que por razões genuínas de identidade nacional, os catalães de gema pretendam desligar-se de uma Espanha para a qual são contribuintes líquidos (ao contrário dos seus primos bascos, que conquistaram à bomba um regime fiscal bem mais favorável). O mundo e os seus hábitos globalizam-se, numa espiral aparentemente sem retorno, enquanto os egoísmos nacionais recrudescem. Legitimamente, sim - é este o drama. 

  1. Poucos parecem acreditar que o destempero de Donald Trump e Kim Jong-un chegue ao ponto de desencadearem uma guerra nuclear. Mas os sinais de fogo adensam-se a cada dia que passa, pelo que a probabilidade de o repentismo levar a melhor num cenário de tensão extrema, real ou provocada, não é tão remota quanto parece. 

O líder norte-coreano já mostrou a sua têmpera de jogador de alto risco, capaz de colocar os nervos em franja a qualquer antagonista. A sua aparente insanidade é mais encenada do que real, ou não estivesse ele sob vigilância próxima da China, que não deseja um conflito na sua zona de influência. Bem mais incerta é a estrutura psicológica do Presidente americano. 

  1.   É já esta sexta-feira que a proposta de Orçamento do Estado para 2018 será dada a conhecer. Sem surpresa, assistimos nas últimas semanas a um concerto reivindicativo das estruturas políticas, sindicais e patronais, subordinado a uma nota só - como tirar partido da melhoria do contexto económico-financeiro em benefício dos seus constituintes. Até aqui, nada de anormal, nem na insensatez da substância nem na encenação de jogos de guerra. 

Para registo específico, ficam as propostas alegres dos primos gastadores (BE, PCP/CGTP) e as estapafúrdias do CDS (Bagão Félix já não é ouvido no Largo do Caldas?).  

  1.   Quanto tempo mais será preciso, quantas vítimas desnecessárias, até que os poderes públicos se compenetrem de que as "épocas" balneares e de fogos não podem continuar a obedecer aos calendários do antigamente?  

A figura: Richard Thaler

 

"Não há melhor maneira de construir confiança em torno de uma teoria do que acreditar que não é testável" - esta é uma das muitas tiradas heterodoxas do novo prémio Nobel da Economia.

 

Personagem pouco conhecida do mainstream económico, Thaler tem o mérito de introduzir o elemento individual do comportamento humano, naturalmente oportunístico e egoísta, na análise económica. Daí a considerar-se o primado dos comportamentos "irracionais", impulsivos, ditados por emoções e não tanto por regras gerais de cariz determinístico, vai um pequeno passo, que Thaler desenvolve com o atrevimento de um psicólogo.

 

Na verdade, os pressupostos clássicos da macro e da microeconomia podem bem estar impregnados de uma cientificidade cada vez mais posta em causa pela evolução individualista das sociedades e da atitude dos seus agentes. Este Nobel é, por isso, uma pedrada violenta nas águas paradas dos modelos neoclássicos. Aguarda-se a resposta da economia política.

 

O número: 7.500 milhões de dólares

 

É o valor que os chineses deverão movimentar, no corrente ano, em pagamentos por telemóvel. O Império do Meio quer estar na dianteira do promissor negócio dos porta-moedas electrónicos e não o esconde. Para já, Xangai é a melhor montra mundial do consumo de nova geração.

 

A desmaterialização dos meios de pagamento pode vir a conhecer um desenvolvimento exponencial nos próximos anos. Se, como muitos crêem, o dinheiro físico vier a tornar-se obsoleto, abre-se todo um mundo de oportunidades. Surgirão novos modelos de negócio, a maioria dos quais à revelia do sistema financeiro tradicional, que não tem até agora dado mostras de querer ir muito além dos seus pesados sistemas garantísticos.

 

Não surpreende, assim, que a ex-fábrica do mundo, pouco agarrada ao legado bancário do Ocidente e às suas práticas comissionistas, pretenda ser o farol da mudança. Quem serão os futuros acquirers? Que novo tipo de instituições financeiras estará a caminho? O que será da SIBS?

 

Economista; Professor do ISEG/ULisboa

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