Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 07 de agosto de 2017 às 22:10

Sirenes de alarme

Saber que um jornalista está disposto a romper o pacto de silêncio, ainda que só depois de a catástrofe estar à vista de todos, pode ser a notícia de que, finalmente, um jornalista decidiu morder um cão.

A FRASE...

 

"Se o que se passou em Portugal, com a dimensão que teve, em que um conjunto de bancos foram ao tapete e os jornalistas não viram, é porque estavam distraídos com outras coisas."

 

José Fragoso, Sol, 29 de Julho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Não é notícia que um cão mordeu um jornalista, mas é notícia que um jornalista, que teve diversas responsabilidades de coordenação de órgãos de comunicação, assuma a necessidade de autocrítica, para si e para os que dirigiu, quando uma catástrofe de grande dimensão ocorreu, num processo que durou várias décadas, sem que as sirenes de alarme tenham sido accionadas por aqueles que tinham obrigação de saber o que estava a acontecer. Saber que um jornalista está disposto a romper o pacto de silêncio, ainda que só depois de a catástrofe estar à vista de todos, pode ser a notícia de que, finalmente, um jornalista decidiu morder um cão.

 

Porém, também pode ser a notícia que serve para esconder, ou para adiar, a verdadeira notícia. O que deve ser notícia não é que um jornalista tenha compreendido que precisava de fazer uma autocrítica, mas sim que todos os que, antes do jornalista, tinham a obrigação de denunciar o que não podiam deixar de saber continuam sem sentir a necessidade de fazerem a sua autocrítica. O jornalista deveria noticiar que os responsáveis tinham accionado os sinais de alarme, ou, pelo menos, que estavam a preparar-se para o fazer. Em vez disso, a missão que foi dada aos jornalistas foi a de comunicarem que os responsáveis não sabiam de nada, ou que os que sabiam estavam confiantes nas explicações cabais que os que provocaram a catástrofe teriam para dar quando fossem questionados.

 

Na legitimação dos poderes em regime democrático, o regular funcionamento das instituições democráticas é um critério decisivo para a continuidade do poder. Este critério não pode ser confundido com a estabilidade aritmética do poder. Esta pode ser o resultado do pacto de silêncio que distorce e destrói o regular funcionamento das instituições democráticas, em que as cumplicidades são construídas no pressuposto de que os detentores do poder desconheciam o que não podem deixar de saber para exercerem as suas funções.

 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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mais votado Anónimo 08.08.2017

Tem toda a razão. E, sobretudo, toca num ponto extremamente sensível: os jornalistas, com menos desculpas que outros com responsabilidades sociais, assobiaram para o ar ou pior. Eles sabiam de muita coisa, e deviam ter falado ...

Já agora, porque é que grupos portugueses investiram na comunicação social, sabendo de antemão que as perpectivas de negócio eram fracas? Claro, não havia ligação com o escrito no parágrafo anterior ...

Pior, é que ainda por cima somos um país pequeno, onde todos se conhecem. Se amochas, com o tempo, és um gajo não só competente como porreiro e tens direito a algumas migalhas; um dia podes mesmo passar a fazer parte da pandilha . Se fazes o teu trabalho de forma séria, és um gajo díficil e conflituoso, e vamos fazer-te a vida díficil que os respeitinho pelos "superiores" é muito bonito.

E na politica também foi assim com o Salazar, durante o cavaquismo (e de que maneira!) , foi assim como Sócrates, e o Santana Lopes também queria ir por esse caminho ...

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alblopes 08.08.2017

Reparem bem no que está a acontecer agora. Vejam bem no frete que o meio-irmão do indiano, director nas empresas do Balesmão, está a fazer, quer na SIC quer no Expresso, até há algum tempo atrás um jornal de alguma referência! Vejam como se prestam estes orgãos de informação a bajular o poucochinho, com títulos adequados e sondagens "compradas" ad-hoc! Depois, os srs.jornalistas que por ali andam aos papéis e que, pelos vistos, não vêem nada, não venham queixar-se que sofrem de falta de visão! É que as nuvens adensam-se e mais dia, menos dia, estaremos todos mais uma vez às escuras e, então, é que ninguém conseguirá ver nada!

pertinaz 08.08.2017

O ESTADO DO PAÍS EVIDENCIA QUE JÁ NÃO HÁ JORNALISTAS...

VIVEMOS EM DITADURA

5640533 08.08.2017

Os jornalistas, como todos nós, querem preservar o emprego. É triste, mas é assim. Jornalismo de investigação há muito que praticamente não existe.

Anónimo 08.08.2017

Olha para o que eu digo e não para o que faço

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