Miguel Varela
Miguel Varela 12 de julho de 2017 às 20:03

"Slow news season"

No campo político, António Costa soube subtilmente remeter o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista a uma profunda insignificância de ação.

O debate do estado da nação deverá ser o último acontecimento político em Portugal antes de entrarmos na tradicional "silly season", assim designada pelos ingleses, que acontece durante o verão e que limita os acontecimentos políticos e as suas consequentes notícias e mediatização. Os americanos chamam-lhe "slow news season".

 

Não fossem os acontecimentos recentes (incêndios mais graves de sempre, roubo na base de Tancos, demissões de secretários de Estado), devo confessar que a eficácia das políticas da "geringonça" tem surpreendido. É um facto que a economia cresce a valores acima do previsto e também acima da média europeia, o desemprego voltou a valores inferiores a 10%, a inflação tem sido mais baixa e existe uma clara recuperação do investimento e do consumo.

 

Esta conjuntura prova que a economia é uma ciência social que funciona de comportamentos e de estímulos. António Costa sabe-o bem. No campo político, António Costa soube subtilmente remeter o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista a uma profunda insignificância de ação. Diria até que a "geringonça" pouco ou nada revela na atuação política que se trata de uma coligação com a extrema-esquerda. António Costa governa claramente ao centro e atrevo-me a dizer que, em muitas políticas, à direita de decisões do anterior executivo de Passos Coelho.

 

A oposição tem então um papel muito difícil em contrariar estas evidências e obriga-se a substituir a política pela "politiquice" e arriscando-se a uma derrota histórica quase certa nas próximas eleições.

 

Tudo parece correr bem para António Costa que sabe governar bem a conjuntura. Mas poderemos estar perante nova bolha de "artificialismo" sob as condições em que estamos a viver, empresas e particulares. Apesar do impulso positivo para a economia, o recurso ao crédito aumentou. As condições laborais têm-se vindo a degradar pois os trabalhos criados desde 2013 são cada vez mais precários e mais mal remunerados. Também a dívida não para de crescer. Falta a este Governo visão estrutural e de longo prazo. Aqui a ausência de estratégia e de políticas é perfeitamente notória. Que Portugal queremos daqui a 10 anos? Que setores devem ser dinamizados para a economia portuguesa? O que queremos do Estado e quais as suas funções no futuro? Que soluções para a sustentabilidade e consequente reforma da Segurança Social?

 

Nestes dois meses, os portugueses estão mais otimistas e muito mais dedicados a gozar férias e "ir a banhos" do que interessados na política. Os futuros acontecimentos políticos deverão ocorrer aquando da discussão do Orçamento do Estado para 2018 e das eleições autárquicas.  

 

Director do ISG - Business& Economics School

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Varela 13.07.2017

Não estamos tão bem assim. A dificuldade de quem trabalha por 550 euros, é a mesma. O Estado leva uma fatia brutal do que os outros produzem. Há militares a ganharem 100% do salário, estando em casa sem fazerem nada. Quantos trabalham para eles? Nenhum país da UE, e moderno, sustentava uma coisa destas. Que falta faz um exército? Marinha e Força Aérea não chegavam? Os políticos mantém todos os privilégios. Não há um, sequer, a quem tenha corrido mal a vida. Uma vez na política e estão garantidos para sempre em termos financeiros. São milhares de 'Lulas' que temos aqui a evitarem que os pobres sejam um pouco menos pobres. Este país não é sério. Nem o governo. Nem a oposição. Nem, infelizmente, o povo.

fcj 13.07.2017

Mais uma opinião direitola...

Judas a cagar no deserto 12.07.2017

Ultima Hora: No final de reunião com o primeiro-ministro, o Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas explicou que boa parte do material furtado em Tancos estava para abate. Podia ser uma boa notícia, não estivéssemos ainda dentro dos 30 dias, ou seja, os assaltantes podem trocar os artigos.