Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 17 de outubro de 2017 às 20:30

Sócrates contra Sócrates

A mediatização do processo também é uma oportunidade para Sócrates, que no "julgamento na praça pública" tem uma possibilidade de acesso ao sistema mediático, para nele exercer a sua defesa e influenciar a opinião pública.

A propósito de José Sócrates, o músico Samuel Úria formulou uma vez o seguinte dilema filosófico: "Como presumir a inocência de alguém quando isso implica darmos a presumir a nossa própria estupidez?" É nisso que penso de cada vez que o antigo primeiro-ministro aparece na televisão a refutar as acusações da Operação Marquês.

 

Juro que me tenho esforçado por não ofender a presunção de inocência, mesmo que ela não seja chamada às minhas introspecções ou conversas privadas. Mas o esforço é inglório, de tal forma a defesa de Sócrates é contraditória e implausível.

 

Vejamos, por exemplo, o que ao longo dos últimos anos Sócrates disse sobre a origem dos fundos que lhe sustentavam o estilo de vida. Primeiro, alegou que se tratava de dinheiro herdado da família. Depois, passou a afirmar que foi viver luxuosamente para Paris à conta de empréstimos bancários. Quando descobrimos que tudo isso era mentira, e que afinal vivia à custa de entregas regulares de somas insólitas em dinheiro vivo, provenientes de contas em nome do amigo Carlos Santos Silva, a confusão continuou: Sócrates começou por explicar que não confiava no sistema bancário (como não rir?) para, agora, dizer que quem decidiu esse esquema foi o próprio Santos Silva, lá por razões que só a ele dizem respeito.

 

Na entrevista da última sexta-feira à RTP, o ex-primeiro-ministro acrescentou à trama outras barbaridades de antologia. Defendeu-se da acusação de que o dinheiro de uma conta bancária de Santos Silva era seu porque, imagine-se, o documento de abertura dessa conta foi assinado por Santos Silva. Argumentou que falava com o amigo sobre a entrega de "fotocópias", "papéis" e "envelopes" porque "os amigos constroem um mundo em comum". Refutou qualquer ligação com Ricardo Salgado só porque este não consta do registo oficial das suas reuniões enquanto primeiro-ministro. Disse que tinha um Júlio Pomar em casa porque a mulher de Santos Silva lho quis dar em troca de sete quadros mais pequenos (compreendo: eu também devolvi "A Ronda da Noite" ao Rijksmuseum porque não me cabia na sala). E por aí fora.

 

Tudo embrulhado na alegação constante de que o processo, aparentemente o maior colosso da história da justiça portuguesa, não tem nada - nada - que possa levar um cidadão comum a franzir o sobrolho.

 

Percebo que José Sócrates se queira defender em público. Talvez ache que a mediatização do processo é uma dificuldade para a sua defesa, porque com as imputações que se vão conhecendo não são muitas as pessoas realmente disponíveis para dar a devida importância aos direitos de defesa dos arguidos. Porventura, Sócrates receia que os juízes que o vão julgar sejam contaminados pelo ambiente geral.

 

A verdade, porém, é que a mediatização do processo também é uma oportunidade para Sócrates, que no "julgamento na praça pública" tem uma possibilidade de acesso ao sistema mediático, para nele exercer a sua defesa e influenciar a opinião pública, como mais ninguém tem. Nunca um arguido teve tanto tempo de antena como José Sócrates. Nunca um arguido teve tantas hipóteses de contestar "na praça pública" os seus acusadores.

 

O problema é que, perante o tipo de defesa que faz, só é possível concluir que tem vindo a contribuir para a sua própria incriminação. Ninguém pode pedir aos portugueses que aguardem serenamente pelo julgamento e por uma decisão final, quando entretanto José Sócrates lhes irrompe pela casa dentro, via televisão, como o mais feroz e eficaz acusador de si mesmo.

 

Advogado

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comentários mais recentes
JARANES Há 4 horas

Vindo de um advogado que pertence a um escritório de advogados que trafica influencias com as ligações que tem ao Estado, não está mal...

5640533 Há 16 horas

Em Portugap, basta alguém ter problema com a Justiça para começar a aoarecer na TV e escrever livros. Não há opinião pública que condene.