Fernando  Sobral
Fernando Sobral 25 de setembro de 2017 às 19:25

Spaghetti autárquico 

Estas eleições autárquicas estão a celebrizar-se por permitirem a discussão sobre todos os temas menos os que realmente interessam a quem vive nas vilas e aldeias de Portugal.

Não se está a realizar uma campanha autárquica: está a rodar-se um "western spaghetti". Ou seja, nem é um filme de "cowboys" nem uma comédia onde se come demasiada massa. Grande parte dos actores são semelhantes ao célebre Trinitá, o chamado "cowboy insolente". Arrastam-se enquanto se discute se houve um ovni que levou as armas de Tancos ou se tudo não passou de uma dose de LSD colectiva. Nada que nos possa surpreender. Estas eleições são o reflexo da debilidade da chamada elite política nacional. Enquanto os líderes cavaqueiam à volta de coisas mundanas de pequena e média política, o país real desertifica-se. Basta percorrer um pouco o Portugal que não faz parte das coutadas de Lisboa e do Porto para se entender como os últimos anos o poder central (com a conivência de muitos coronéis locais) criou uma desertificação do país. A desertificação não é só o corolário dos grandes incêndios que mostram, ano após ano, a confrangedora ausência de estratégia nacional ou local. É o reflexo da retirada do aparelho do Estado (serviços de saúde, escolas, tribunais, entre outras coisas) do interior. Se juntarmos a isso a trágica actuação do sector ferroviário onde não há horários para nada, e onde o desinvestimento foi brutal, percebe-se melhor o pântano.

 

Depois de José Sócrates ter tentado transformar Portugal numa Disneylândia virtual, Passos Coelho tentou a alquimia de criar um país "low-cost". O resultado das duas magias está à vista: um país desertificado e rasgado por auto-estradas. Com casas desertas, terrenos abandonados e gente perdida e envelhecida, entendemos por que razão nestas autárquicas se discute Tancos, Madonna, quem merece os louros pelo crescimento económico ou o dinheiro que nasce no OE para aumentar tudo e todos. Estas eleições estão a servir para uma coisa: para não se discutir a vida do país das autarquias.

 

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