Paulo Pinho
Paulo Pinho 10 de agosto de 2017 às 19:58

Start-ups: "funding gap" ou "management gap"?

Diz-se que Portugal é o país das start-ups. E que estas são o futuro. O país faz festa e gasta milhões em capital de risco público, em incubadoras e associado "show-off" político e mediático.

As universidades apostam em cursos de empreendedorismo e os concursos de planos de negócio multiplicam-se como cogumelos. Porém, é escasso o número de start-ups portuguesas que após uma década de actividade facturam dezenas de milhões, crescem acima dos 50% ao ano (gazelas) e apontam para valorizações acima da centena de milhões. Muito poucas realizaram rondas de financiamento acima dos dez milhões. Saídas milionárias, poucas houve.

 

Muitos queixam-se da existência de um "funding gap" no ecossistema empreendedor. Ou seja, que existe abundância de fundos para financiar pequenas iniciativas até 500 mil euros, mas que escasseia o capital para fazer rondas posteriores de maior dimensão. A realidade é que existe um forte redireccionamento do capital de risco para "seed funding". Onde se dirige, então, quem necessita de fazer uma ronda de 5 milhões para crescer e expandir?

 

Os "venture capitalists" que olham para as start-ups portuguesas queixam-se de um evidente "management gap". As start-ups que lhes aparecem foram muito apaparicadas pela histeria pró-empreendedorismo e não estão muito habituadas a ser questionadas quanto aos fundamentos do seu negócio e das capacidades de gestão. Os investidores precisam de saber como vão recuperar e multiplicar o valor do seu investimento, o que só será possível em casos de start-ups que tenham uma excelente proposta de valor dirigida a um mercado-alvo apetecível. É impressionante, como entre nós é fácil obter uns milhares de financiamento para iniciativas pouco ou nada focadas no cliente e sem qualquer ideia concreta de como abordar o mercado-alvo, de como enfrentar a concorrência, de como melhorar cada vez mais o valor oferecido aos clientes para que estes se convençam a comprar. Mas quanto a levantar milhões, o deserto é absoluto.

 

Se não existem, entre nós, fundos para rondas de elevada dimensão, a solução é levantá-las no estrangeiro. Mas quando a equipa empreendedora não revela capacidades de gestão, o negócio não dá mostras de vir a gerar vendas futuras e a equipa é arrogante e não aceita que é incapaz de levar a empresa ao nível seguinte, dificilmente consegue atrair financiamento internacional. Entre nós persiste a ideia totalmente errada de que se deve apoiar "promotores" em vez de estimular empresas. Porém, o "promotor" é muito frequentemente - mas felizmente nem sempre - a pessoa errada para levar a empresa ao nível seguinte. Ou seja, para atrair financiadores externos em montantes significativos enfrentamos um "management gap", traduzido em equipas com enormes deficiências quanto às competências necessárias para levar a empresa a bom porto.

 

Em conclusão, existe um "funding gap" entre nós. Mas o problema de fundo está num evidente "management gap". Portugal devia assumir que já tem maturidade suficiente no mundo das start-ups para deixar de apoiar "ideias" e "promotores", canalizando os recursos de "seed capital" para as start-ups mais focadas no mercado e no cliente, ajudando-as a identificar os seus "gaps" de competências, e a recrutar pessoas que possam colmatar as falhas identificadas e a criar equipas vencedoras, preparando-as para as rondas de financiamento seguintes com investidores internacionais.

 

Academic Director do The Lisbon MBA

A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Anónimo 11.08.2017

É exactamente isto. Conheço bem de perto um caso de uma empresa com crescimento na ordem dos 40%/ano, e agora que teve a oportunidade de dar um salto de gigante, com contratos na mão, não houve um único veículo financeiro que se disponibilizasse a apoiar o financiamento. E assim não se venderam €6M