Raul Roque Figueiredo
Raul Roque Figueiredo 23 de janeiro de 2018 às 22:25

Sustentabilidade na arquitetura

Um espaço com 10 m2, encerrado por quatro paredes de blocos, uma cobertura em chapa, uma porta e uma janela. São assim a maioria das habitações nas periferias das cidades africanas, semelhante à realidade encontrada em países asiáticos e sul-americanos. Uma realidade insustentável.

A ideia de sustentabilidade, que assenta no princípio de que devemos conseguir satisfazer as nossas necessidades atuais, sem comprometer o futuro das próximas gerações, é uma noção muito discutida e aprofundada nos países desenvolvidos. Contudo, esquecemos, frequentemente, o que se passa nos países em vias de desenvolvimento, onde esta temática está muito longe de emocionar o comum dos cidadãos, cujas preocupações são, sobretudo, de sobrevivência. Somos confrontados com problemas que, em muitos casos, têm algumas semelhanças com as dificuldades encontradas naqueles países, embora com dimensão e gravidade infinitamente menores. A grande concentração populacional nas periferias, a falta de planeamento, a má qualidade das habitações, a necessidade de grandes deslocações para os locais de trabalho, dificuldades de mobilidade com ineficiência dos transportes coletivos, são causas comuns a diferentes regiões mundiais.

 

As discussões habituais sobre cidades e edifícios sustentáveis estão ainda longe de fazer parte das prioridades da maioria da população. Mesmo nos países desenvolvidos, as constantes referências à urgência de "salvar o planeta" não alteram a perceção sob a necessidade de introduzir novos comportamentos na procura de soluções mais sustentáveis, por exemplo, na arquitetura.

 

Edifícios que incorporam tecnologias diversas de última geração, criteriosos processos de construção, cuidados com a origem dos materiais e produção de resíduos, aplicação de vários sistemas, ativos ou passivos, que contribuam para uma elevada eficiência energética e capacidade de produção de energia, necessitam ainda de investimentos avultados que não estão ao alcance de todos.

 

Daí a necessidade de estender o conceito de sustentabilidade à atividade corrente da arquitetura, transformando-o numa preocupação efetiva e permanente, começando por ações que possam ter repercussão no dia a dia dos cidadãos. São princípios simples e facilmente aplicáveis, mas com resultados importantes. O cuidado com a orientação dos edifícios, a colocação de elementos de proteção solar para os períodos quentes e de captação solar nos períodos mais frios. O tratamento da envolvente com processos e materiais que garantam um bom isolamento, a utilização de materiais de baixa manutenção e durabilidade, a ventilação por meios passivos melhorando a qualidade do ar, o recurso a fontes de energia limpa ou sistemas de poupança de água são elementos de aplicação simples e facilmente integráveis na arquitetura. Contribuem decisivamente para a melhoria da construção, devendo fazer parte de qualquer projeto, como uma prioridade que resulte da vontade dos cidadãos, sem soluções complexas, inadequadas e mesmo descontextualizadas, que distorcem os fundamentos da ideia de sustentabilidade.

 

Arquiteto, sócio-fundador do Pitágoras Group

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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