Bo Lidegaard
Bo Lidegaard 12 de janeiro de 2017 às 20:00

Sustentabilidade na era Trump

O facto é que não sabemos o que Trump fará, porque ele também não sabe. A política ambiental do seu governo não está esculpida na pedra; está escrita na água, que sempre procura o caminho mais rápido para o ponto mais baixo.

As forças que combatem o aquecimento global e que lutam para fortalecer a protecção ambiental devem preparar-se para danos colaterais pesados, em resultado da vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. A julgar pela retórica da campanha de Trump e pelas declarações dos seus aliados republicanos, a protecção ambiental nos EUA será eviscerada, um frenesim de desregulamentação e incentivos para os produtores domésticos de petróleo, carvão e gás.

 

Os ambientalistas estão a avaliar os danos potenciais e a desenvolver estratégias para evitar uma investida impulsionada pelas mais extremas forças anti-sustentabilidade que já controlaram Capitol Hill. A lista de possíveis vítimas é longa e deprimente. Se acontecer o pior, a América ficará muito menos verde, e a cooperação internacional sairá penalizada.

 

Na recente conferência sobre alterações climáticas (COP 22), em Marraquexe, as atenções concentraram-se nas diversas formas pelas quais a administração Trump poderá acabar com o acordo climático na COP 21, em Paris, no ano passado. A morte pode chegar por assassinato, com Trump a rasgar o acordo. Ou poderá vir pela fome, com os EUA a recusarem-se a fazer ou pagar a sua parte. Ou pode ser torturado até a morte, com os EUA a pedirem a todos os outros para fazerem mais.

 

Certamente, há mais opções, mas não somos obrigados a contemplá-las. Não precisamos - e não devemos. Muito pouco se sabe sobre o que a administração Trump fará realmente. Alguns esperam que a razão venha a prevalecer, pelo menos em certa medida, particularmente dado que os mercados estão agora a impulsionar a transição verde. Outros temem que não.

 

O facto é que não sabemos o que Trump fará, porque ele também não sabe. A política ambiental do seu governo não está esculpida na pedra; está escrita na água, que sempre procura o caminho mais rápido para o ponto mais baixo. Se os fanáticos e os lóbis do carvão vão conseguir levar a sua avante, isso depende das barreiras construídas por nós.

 

Isso significa concentrarmo-nos em mobilizar as forças que podem fortalecer os argumentos para a América continuar a ser parte do movimento global em direcção à sustentabilidade ambiental. Isso não vai convencer os irredutíveis da nova administração, mas pode sustentar forças mais moderadas.

 

Então, quem é este "nós" que deve agora agir?

 

Em primeiro lugar, "nós" são governos locais dos Estados Unidos, organizações não-governamentais, comunidades locais e corporações. Todos precisam de galvanizar o apoio dos americanos para proteger ambientes locais e contribuir para soluções globais.

 

Em segundo lugar, "nós" é a comunidade internacional: os quase 200 membros das Nações Unidas que em 2015 adoptaram os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável e o acordo climático de Paris. É extremamente importante que todos os membros da ONU, sejam grandes ou pequenos, insistam para que esses acordos globais direccionem as acções do mundo, independentemente do que Trump faça.

 

Deve ser muito claro para a próxima administração que o interesse económico e ambiental em prosseguir a agenda de sustentabilidade continuará a empurrar os países e empresas nessa direcção. É importante que a China já tenha dito que não renunciará às oportunidades inerentes à transição verde e que assumirá a liderança global se os EUA se afastarem.

 

E a China não estará sozinha. Ainda que muitos possam lamentar a ausência de liderança americana, ou mesmo passos na direcção oposta pela administração Trump, os EUA não são mais fortes o suficiente para fazer toda a diferença. Outros países vão preencher a lacuna e obter os benefícios, e devem mostrá-lo de forma clara. A América de Trump até pode deixar o comboio, mas não pode pará-lo. O resto do mundo continuará a avançar.

 

A América corporativa e os mercados de capitais deveriam reforçar essa mensagem, não como uma declaração política, mas como uma advertência de que uma economia norte-americana que sacrifica as oportunidades implícitas na agenda de sustentabilidade será menos atractiva para os investidores e, portanto, menos próspera. Em Novembro, 365 grandes empresas americanas e investidores fizeram exactamente isso, emitindo um apelo público a Trump para não abandonar o acordo climático de Paris. Se Trump quer dar mais empregos e melhores rendimentos aos seus eleitores, uma forma de o fazer é promovendo a agenda verde de eficiência energética e renováveis.

 

A quarta componente do "nós" que deve agir são consumidores participativos em todo o mundo. Marchar nas ruas gritando palavras de ordem aos líderes eleitos não fará a diferença. Mas agir para organizar os consumidores ao nível local, nacional, regional e global pode fazer. A mensagem precisa de ser enviada não apenas por consumidores individuais, mas também por organizações com capacidade de encorajar e amplificar a mensagem: "Não compraremos produtos e serviços que desafiem a agenda de sustentabilidade e daremos preferência a produtos e marcas de qualidade que respeitem e promovam a sustentabilidade". Seja qual for a forma que assuma, a mensagem deve ser directa e transparente, e também deve visar empresas norte-americanas que se aproveitam de qualquer relaxamento das normas ambientais internas.

 

A maioria de nós não votou em Trump, e não somos obrigados a seguir seu exemplo. Pelo contrário: quanto mais fortemente nos organizarmos para manter o curso e reforçar a acção para deter o aquecimento global e promover a sustentabilidade, mais provável será que os membros pragmáticos da nova maioria possam minimizar os danos em casa e no exterior.

 

Bo Lidegaard, antigo director do diário dinamarquês Politiken, é o autor, mais recentemente, de Countrymen.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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