Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 03 de Janeiro de 2017 às 00:01

Temos o debate político que merecemos

Que incentivo há para o discurso responsável, para a ausência de promessas irrealistas, para a discussão dos resultados e não das intenções? Nenhum.

Pelo contrário, sobram incentivos para o inverso, para a irresponsabilidade, para as promessas, para a discussão centrada na superioridade moral e não na superioridade das soluções.

 

A discussão sobre o aumento do salário mínimo é um exemplo.

 

Durante anos, PCP e Bloco acusaram o anterior Governo de querer a miséria ao não aumentar de uma só vez o salário mínimo para 600 euros, enquanto o PS insistia que o aumento desse salário, que o PS havia congelado, não tinha consequências de maior no emprego. O aumento do salário mínimo foi assim discutido como uma questão de vontade deixando na opinião pública a impressão de que esse salário só não é aumentado por maldade ou falta de vontade.

 

Agora os três partidos aceitam o aumento para 557 euros, muito aquém das promessas, suportado à custa da baixa da TSU para compensar os efeitos do aumento na vida das empresas. O que é que isto nos diz? Que o salário mínimo só pode subir aquilo que a economia permite, que PCP e Bloco aceitam que não é possível um aumento para 600 euros, que o PS admite consequências desse aumento na criação de emprego, e que a baixa da TSU não é problema algum desde que aprovada pela esquerda.

 

Esperar-se-ia que estes partidos fossem confrontados com estas circunstâncias, não por pirraça, mas porque assim se poderia iniciar um debate sério sobre o salário mínimo ou sobre a TSU: daqui para a frente, reconhecidas as contradições, poderíamos discutir com propostas realistas, permitindo tomar decisões mais consensuais, fundadas. Mas nada disso se passa.

 

PCP e Bloco são tratados como partidos que não conseguiram levar a sua avante, uma espécie de polícia bom, e não como partidos que reconhecem o populismo das suas propostas e aceitam uma baixa da TSU. Carta-branca para continuarem assim na próxima discussão do salário mínimo, em regateio.

 

O PS é tratado como partido que logra um aumento do salário mínimo, um artífice, e não como partido que reconhece a necessidade de o compensar, que vai ao ponto de aprovar algo que abjurou. Carta-branca para continuar a tratar o salário mínimo ou a TSU como assuntos onde os resultados não entram, apenas as intenções.

 

E é assim que se faz debate político. Como se trata de salário mínimo, ai de quem apareça a chamar a atenção para tudo isto, estragando a festa, como se de um insensível se tratasse. Pelo contrário, o melhor é entrar no jogo e prometer mais ainda, fazendo dos restantes uns unhas de fome. 

 

O exemplo do salário mínimo é um, mas há mais. Veja-se o ritmo do endividamento, que este Governo aumentou, e não para investimento público, que não tem merecido qualquer confrontação.

 

Saúdam-se as despesas, as reposições, as reversões, e ai de quem venha falar de endividamento, uma pessoa do passado que não sabe que austeridade e dívida são assuntos que não entusiasmam. Pelo contrário, o melhor é entrar no jogo e prometer mais ainda, fazendo dos restantes uns contabilistas que só querem saber de contas e não das pessoas.

 

Estes exemplos, mas há muitos mais, mostram bem os incentivos que temos para um debate mais ponderado e consequente: quase nenhuns. Dizem que é natural que o debate seja assim, que a política é assim. Não, não é natural que seja assim. Não tem de ser assim. É aliás por ser assim que os outros países crescem e avançam, quase todos, e nós andamos a marcar passo.

 

Advogado

A sua opinião17
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado Anónimo Há 1 semana

Este povo não é suficientemente maduro para ter uma democrcia responsável como no norte da europa por exemplo. Não nos sabemos governar em democracia e não é por acaso que o paìs já faliu três vezes em 42 anos, um record mundial que devia constar no guiness book. Não temos a consciência que pertencemos a uma comunidade (povo/país) e que é de interesse de todos que essa comunidade esteja saudavel financeiramente, somos uma soma de grupos de interesses, cada um a puxar para si próprio.

comentários mais recentes
Pois Há 1 semana

E temos que aturar escumalha da tua laia

Emigra rapazola Há 1 semana

Desaparece, vocês deviam ser todos fuzilados

Anónimo Há 1 semana

Vejam https://vimeo.com/40658606 e depois decidam onde votar nas próximas autárquicas... ao abdicar dos valores social democratas estão a tornar-se um partido de minorias ricas e aburguesadas... e para contrariar isso vão chamar ao serviço a estrema direita do PNR o braço popular da direita tuga !

Anónimo Há 1 semana

Pensei por uns instantes que o autor estaria a falar do populista Trump ! Mas, afinal não está a dissertar sobre os que governam para a classe média e não lhe dão descanso no parlamento... afinal ter que trabalhar é chato... não é ?

ver mais comentários