Sara Levy
Sara Levy 20 de Novembro de 2016 às 17:22

Temper Trump*

De acordo com sondagens à boca da urna nas primárias, os apoiantes de Trump têm rendimentos mais elevados do que a média dos americanos, mais altos do que os apoiantes de Clinton e Sanders.

Devia ter escrito ontem. Não porque ontem tivesse as ideias mais claras, mas porque ontem chovia. Debaixo de chuva, cinco minutos atrasada, corri para a escola com as crianças pela mão, as mochilas aos saltos nas nossas costas, atacadores a precisarem de ser atados, os pés a ficar molhados, as gargalhadas que elas dão sempre que correm, e que carreguei comigo ao entrar no autocarro.

 

No autocarro, o silêncio cortava-se à faca. Em Baltimore, onde vivo, Clinton teve 85,4% dos votos. Penso na palavra "sulk" e não arranjo tradução. É diferente de amuar, menos relacional, mais pessoal, mais triste.

 

Hoje está sol, o que já não inspira a mesma sequência de cenários catastróficos que me ocorreu ontem. Preocupam-me as coisas que Trump disse sobre muçulmanos e mexicanos. Mas quero acreditar que não são políticas que ele vá perseguir, que as disse por demagogia e não por convicção, e tenho esperança de que as abandone perante o primeiro obstáculo. Por outro lado, estou segura de que nada fará ao nível da proteção do ambiente, da proteção dos cidadãos e dos consumidores, da justiça fiscal e dos apoios sociais, enquanto nos distrai com o circo da sua personalidade. As alterações climáticas já são irreversíveis. Mas ontem morreu qualquer esperança de que se invista em moderar as consequências.

 

Reza a narrativa predominante que os apoiantes de Trump são os brancos pobres rurais. Nos "rallies", as câmaras focam as caras desdentadas, a pele gretada e as botas de cowboy dos que aprendemos a identificar como "rednecks". O meu "disclaimer" é que não conheço nenhum. Mas enquanto, antes de viver cá, estas combinações de palavras – "inner city blacks, hispanic and latinos, white college graduates, southern evangelicals" – me pareciam a marca de uma insistência ofensiva em pôr as pessoas em categorias, desde que vivo aqui, percebo que não há nada na vida das pessoas cuja cor da pele, e outras denominações, não condicione.

 

É verdade que este segmento da população sofre. Nas últimas décadas, os tais brancos rurais perderam empregos, poder económico, e esperança no futuro. E em consequência sofrem, literalmente, de problemas cardíacos, diabetes e cancros, e demais doenças com conotações sociológicas.

 

Mas a verdade é que os eleitores de Trump estão distribuídos por todos os níveis de rendimento, com enviesamento para os escalões superiores. De acordo com sondagens à boca da urna nas primárias, os apoiantes de Trump têm rendimentos mais elevados do que a média dos americanos, mais altos do que os apoiantes de Clinton e Sanders. 44% têm cursos superiores, comparando com a média nacional de 29%.

 

Além disso, se há coisa uniformizadora na sociedade americana é a ansiedade em relação ao futuro. Podia dizer-se que está na água, se na água não houvesse já tantos outros venenos. A angústia não é exclusiva dos brancos rurais, e por isso não explica nada.

 

Outro "disclaimer", este óbvio: não vivo na América toda. Conheço poucas pessoas. A maior parte tem entre 30 e os 40 anos, cursos superiores, mestrados e doutoramentos, ainda estão a pagar os empréstimos com que pagaram a universidade. Têm um carro, mas tentam andar a pé. Têm um ou dois filhos pequenos, recitam o nome dos planetas enquanto os empurram nos baloiços, ajoelham-se à altura deles e abraçam-nos quando fazem birras, e sabem de cor todos os factoides da investigação científica em desenvolvimento cognitivo que povoam o Facebook. Sabem-no, porque vivem ansiosas em relação ao futuro dos filhos.

 

Conheço outras pessoas, mas não arrisco a descrevê-las. Por respeito à diferença. Por saber que por muito que queira, não as compreendo. Conheço um ou dois republicanos, nenhum apoiante de Trump. Vivo na tal bolha liberal.

 

Katryn Lofton, num artigo para o The Point, compara a nossa incompreensão do fenómeno Trump com o estudo de religião, o que não é o mesmo que comparar o apoio a Trump com uma religião.

 

"There is no religious movement in human history that has not been explained by outsiders to it through recourse to economics. People are always assuming that if you believe in Marian apparitions, throw yourself on a funeral pyre, pray five times a day, or speak in tongues, you do so because you’re poor and hungry for epic consequence, or because you’re poor and want to pay obeisance to omnipotent powers who could make you otherwise. Such observers think religious activities are done by the desperate to compensate through immaterial means for material lack.

It just isn’t so."

 

Segundo Lofton, pertencer a uma religião – pertencer a uma coletividade – é um ato de distinção. Desse modo, tentar encontrar "common ground" é ofensivo em si, porque apoiar Trump é querer demarcar-se dos outros, dos não crentes.

 

No mesmo artigo, Lofton reporta a investigação de MacWilliams, que determinou que a variável mais indicativa do apoio a Tump (entre republicanos) – mais do que rendimento, educação, género, idade ou cor da pele – é uma inclinação para o autoritarismo. As perguntas que MacWilliams usa para determinar o grau de inclinação para o autoritarismo eram sobre estilo de educação dos filhos: perguntou aos pais se era mais importante que os seus filhos fossem obedientes ou independentes; se privilegiavam boas maneiras ou curiosidade. Os pais que valorizam a obediência e as boas maneiras mais provavelmente votariam Trump.

 

Num mundo complexo, em que a ansiedade em relação ao futuro é grande, um líder com certezas pode ser reconfortante. Que ele só diga alarvidades, e mesmo assim esteja seguro delas, é prova para alguns da sua confiança.

 

Miguel Esteves Cardoso escreveu, incompreensivelmente, que: "Aquilo que aconteceu não foi a cobertura das eleições americanas, mas antes uma vasta campanha publicitária a favor de Hillary Clinton."

 

Não consigo conceber esta interpretação. Porque o que eu vi foi Tump, Trump constantemente, Trump em todos os ecrãs. Não se pode chamar "ataques pessoais" ao que era revelado sobre as opiniões, o caráter ou a vida de Trump, se essas são de facto as opiniões, o caráter e a vida de Trump, e nem ele o nega.

 

A dinâmica da campanha foi sempre esta. Trump dizia ou fazia alguma coisa que parecia inconcebível: ofensiva, provocatória, e não só falsa, como facilmente desmentida. O meme passava a permear todas as conversas, junto com a esperança de que fosse esta a gota que entornava o copo. Mas, pelo contrário, a cada revelação, o apoio crescia. A presença constante nos ecrãs, a sequência imparável de escândalos, de birras, cada um a normalizar o anterior, a moldar as fronteiras do que é aceitável, tornou-o inevitável.

 

Porque a ninguém interessava discutir a posição em si, a não ser na perspetiva de quanto essa posição nos ofendia: por ser mentira, por ser desumana, por ser pouco inteligente. Nalguma medida, a nossa ofensa, os nossos "fact-checks", contribuíram para alimentar a besta, para tornar mais coeso o grupo dos seus apoiantes, para definir os contornos exatos da doutrina. Cada vez que Trump avançou sem olhar para trás no meio dos nossos protestos, e disse algo ainda mais incrível, mostrou que estava disposto a enfrentar o status quo, e ganhou seguidores.

 

[...] "every time Trump does something mortifying, he only shows how true is his truth. Evangelicals don’t understand sin as an incapacity for leadership. Obsessing over facts, revealing anxiety, worrying about correct speech and footnotes: these, in the evangelical paradigm, are the signs of faltering faith. Certitude in the face of bedevilment is the surest mark of the saved," escreve Lofton.

 

Mas qual era a alternativa? Como não ficar chocado com as coisas que Trump diz? Como não responder com a nossa verdade, também?

 

Kelefa Sanneh publicou uma crónica no New Yorker sobre o debate da imigração e as questões que nunca são discutidas. A imigração e os refugiados foram dois grandes temas da campanha. É fácil desmontar os argumentos de Trump que os refugiados são um risco para a segurança nacional (não são), é fácil desmentir as acusações de Trump que os imigrantes são criminosos (comparados com o resto da população, os imigrantes cometem menos crimes). É fácil ficar ofendido, mas é pouco útil. Útil seria falar sobre: quantos refugiados cada país deve admitir? Quais os princípios fundamentais que nos levam a achar que devemos fazê-lo? Quais os custos? Há riscos? Temos mais obrigações para com refugiados políticos do que para com imigrantes económicos? Quais as obrigações de um país para com um imigrante ilegal que vive no pais há um ano, há cinco anos, há 10 anos? É correto admitir imigrantes altamente qualificados em detrimento dos pouco qualificados? É justo discriminar com base na religião, na etnia, na nacionalidade, no que toca a atribuição de vistos? É legitimo um país querer proteger certos aspetos da sua cultura e coesão negando a entrada ou os direitos a grupos de pessoas?

 

Temos de admitir que andamos a fugir a estas questões. E que as afirmações desumanas de Trump nos permitem refugiarmo-nos na nossa ofensa, violados que são os nossos princípios liberais, sem que nos perguntemos: onde estamos agora e onde queremos ir, que implicações práticas têm esses princípios, ou que tipo de injustiças ou violações dos nossos princípios estamos dispostos a aceitar, e quais não estamos, enquanto aspiramos a fazer melhor.

 

Se as coisas que Trump diz nos surpreendem, é porque cada vez mais vivemos fechados em câmaras de eco, unidos em redes sociais de pessoas parecidas connosco, onde os algoritmos conspiram para só nos dar mais daquilo que gostamos, do que é popular, fácil, pouco polémico. E durante quase quatro anos, podemos esquecer-nos da existência paralela das outras pessoas, aquelas cujas redes sociais espalham os antifactos aos nossos factos, cujos ecrãs de televisão insistem em mostrar uma realidade que é a antítese da nossa, mas que abanam a cabeça na mesma anuência que nós quando vemos no ecrã que o mundo nos confirma.

 

Não quero pôr em causa a legitimidade do resultado da eleição. Apesar de que Clinton não só ganhou o voto popular, mas o ganhou por margem substancial, maior do que Gore em 2000. Dois milhões de votos, 1,5 pontos percentuais. Isto quer dizer que efetivamente os votos de alguns valem mais do que os de outros, que o sistema está construído assim.

 

Mas não consigo livrar-me da sensação de que Trump não representa ninguém, que é um monstro nascido das frustrações de uns e outros. Que talvez devêssemos ter sido piores pais, piores cidadãos, e não nos ter ajoelhado à frente da criança com a birra a tentar argumentar a legitimidade das suas queixas. Ou então, em vez de querer evitar os berros, devíamos estar preparados para berrar também, ultrapassar a ofensa, chegar ao fundo das questões, e questionar os nossos próprios valores e os dos outros, discutir, negociar, fazer mais perguntas, discutir outra vez, e chegar ao compromisso imperfeito de que o futuro é feito.

 

Hoje está sol outra vez. Num grupo de Facebook das pessoas do meu bairro, onde normalmente se posta sobre assaltos, roubos e disputas entre vizinhos, seguido de comentários sobre como todos devíamos ter armas, pagar menos impostos, ou patrulhar o bairro para expulsar pessoas que não aparentem morar aqui, hoje apareceram os seguintes "posts":

 

"My friend and I were looking to get out there and do some volunteer stuff after realizing this world could use a little more love in it! Any suggestions are welcome! Thanks!"

 

"Spreading love: If anyone needs support after this horrifying election, please feel free to privately message me."

 

É reconfortante, mas não rebenta a bolha.

 

*(temper tantrum: birra)

 

Estudante de doutoramento em Planeamento Urbano

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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