Vítor Bento
Vítor Bento 02 de janeiro de 2017 às 12:15

Tendências e expectativas

Mais do que prever acontecimentos específicos, importa identificar as principais tendências que, muito provavelmente, irão marcar e condicionar os acontecimentos do novo ano.
1. Implicações geoestratégicas do reajustamento da ordem mundial. Os EUA, potência ainda dominante num mundo em transição para uma ordem multipolar (potencialmente mais instável, por natureza), têm visto a sua posição desafiada em várias frentes, pelo que, tendo capacidades naturalmente limitadas, terão que prioritizar os seus objectivos estratégicos. Não é muito provável que, no actual quadro, a Europa se constitua na primeira prioridade. 

O novo presidente americano, se fizermos fé no que tem dito, já desvalorizou o interesse na Nato e avisou a Europa de que terá de assumir uma maior responsabilidade, nomeadamente financeira, com a sua própria defesa. O que tem, pelo menos, dois corolários. O primeiro, no domínio militar, implicará um reforço das capacidades da Alemanha (de que a História não guarda boas memórias).

O objectivo dos responsáveis para 2017 parece ser torná-lo num hiato decisório. Veremos se a realidade aquiesce ou desafia tal objectivo.

Continua abundante o combustível para alimentar uma crise financeira.

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O segundo, no campo económico, e porque envolverá a solicitação de mais recursos orçamentais para a defesa, criará uma dificuldade adicional para o chamado "modelo social", a que muito se tem devido a paz social na Europa. Dificuldade que acrescerá às duas substanciais dificuldades com que este já se defronta: o abrandamento do crescimento económico, tornando mais escassos os recursos disponíveis para distribuição, e o envelhecimento da população, que engrossa as necessidades redistributivas. O novo ano será influenciado por esta tendência, embora as suas principais consequências possam conseguir ser empurradas para os seguintes.

2. Contradições da integração europeia. A União Europeia vive, pelo menos desde Maastricht, numa contradição que ameaça a sua integridade. Impondo a integração monetária como destino obrigatório aos seus participantes, ao mesmo tempo que recusa a integração política que muitos consideram indispensável à viabilidade daquela, a UE parece ter-se colocado o desafio existencial equivalente a quadrar um círculo.

Contidos na primeira metade da existência do euro com a abundância de crédito (que alimentou substanciais desequilíbrios económicos e financeiros), os efeitos de tal contradição expuseram-se com a crise e a sua gestão, exacerbando tensões existenciais no processo de integração. O Brexit é o primeiro sinal concreto de desagregação. O ciclo eleitoral no eixo franco-alemão, porém, não favorece as acções necessárias à boa resolução desta contradição e das tensões que gera. O objectivo dos responsáveis para 2017 parece ser torná-lo num hiato decisório. Veremos se a realidade aquiesce ou desafia tal objectivo.

3. Frustração das expectativas de progresso social. A desaceleração da produtividade e com ela o significativo abaixamento do crescimento económico nas economias ditas avançadas, tem frustrado as expectativas de progresso social criadas pela memória recente das primeiras décadas do pós-guerra e alimentadas pela propaganda política e pelo marketing do consumo. Acresce a frustração de muitos segmentos sociais destas economias com os resultados da globalização, que sendo universalmente vantajosos, lhes são particularmente desfavoráveis. Estas frustrações traduzem-se politicamente em descontentamento social, contestação do establishment e procura de representação nas margens populistas, com a consequente radicalização e instabilidade das sociedades políticas. Fenómenos que irão marcar 2017, influenciando as eleições que se avizinham e favorecendo as tendências protecionistas e de valorização dos casulos político-sociais.

4. Excesso de poupança mundial. A taxa de poupança mundial deu um salto considerável nos primeiros anos do novo século. Incapaz de ser absorvida internamente pelo investimento produtivo nos países que a originaram, uma boa parte acabou exportada na forma de excedentes externos e inundou os mercados financeiros de recursos que alimentaram uma orgia de dívidas, défices e artifícios que descambou na crise financeira. Apesar da crise, tal excesso não foi resolvido. Não havendo investimento produtivo que o absorva, continua reflectir-se em desequilibrantes excedentes externos e abundante liquidez que inflaciona, sem sustentação real, os activos financeiros e a alimenta stocks de dívida há muito considerados insustentáveis. O que significa que continua abundante o combustível para alimentar uma crise financeira.

5. Recuperação económica. Como em economia tudo o que desce acaba por subir, é natural que, depois de uma crise profunda, as economias europeias continuem a recuperar e a favorecer o crescimento. E embora este seja fraco e não permita recuperar o rendimento que a crise fez perder, a memória é curta e valoriza mais as perdas recentes, pelo que este desenvolvimento animará certamente a psicologia colectiva e favorecerá a recuperação de algum optimismo.
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comentários mais recentes
Amador Há 3 semanas

Isto é um economista vivendo acima das suas possibilidades, que atrofiou a economia em Portugal, cobrando no passado altas % quando havia um smartcard no compra de bens.

J. SILVA Há 3 semanas

A desfaçatez deste pulheca que aceitou ir para o novo banco depois dos acionistas que representava no BES terem sido espoliados. Se fosse competente talvez a solução tivesse sido outra. Teórico de meia tijela, já está a "ladrar" novamente, a mandar bitaites, quando deveria ter vergonha e fugir.

J. SILVA Há 3 semanas

Foi sob a gestão deste medíocre e irresponsável que o BES foi resolvido. Mas que é caricato é que este imbecil diz que ninguém lhe disse nada, não sabia de nada, estava a gerir o quê? Mas o que é surreal é que foi nomeado pelos acionistas que perderam tudo, mas foi para o NB como quem muda de cuecas