Yu Yongding
Yu Yongding 25 de janeiro de 2018 às 14:00

Terá o crescimento económico da China estabilizado finalmente?

O optimismo em torno do crescimento económico da China em 2018 não está garantido. Mas isto não significa que as perspectivas para a China, no geral, sejam sombrias.

Durante a última década, a economia chinesa tem estado numa espécie de montanha russa. Com o arranque de 2018, estará o país a aproximar-se de uma nova subida, de uma queda drástica ou de algo que ficará entre as duas situações?

 

Antes da crise económica mundial, que ocorreu há uma década, a economia chinesa estava a crescer a um ritmo acelerado. Mas quando a crise chegou, a taxa de crescimento caiu de forma acentuada. Graças ao pacote de estímulos no valor de quatro biliões de dólares, a queda do crescimento estancou e a economia começou a crescer novamente, alcançando os 12,2% em termos homólogos no primeiro trimestre de 2010.

 

Contudo, pouco depois, o aperto monetário colocou o crescimento económico novamente numa trajectória descendente, o que incitou o governo a flexibilizar as suas políticas e a introduzir pequenos pacotes de estímulos no final de 2011 e no início de 2012. Isto produziu uma recuperação moderada, tendo o crescimento económico começado, pouco depois, a descer novamente embora de forma menos acentuada.

 

Finalmente, em 2016, o crescimento económico da China começou outra vez a estabilizar, com a taxa anual a alcançar os 6,7% em três trimestres consecutivos. Os últimos dados mostram que a economia cresceu 6,8% no terceiro trimestre de 2017, o que levou muitos economistas a apresentarem previsões algo optimistas para este ano.

 

Embora o sistema financeiro chinês esteja cheio de vulnerabilidades preocupantes, muitos economistas chineses acreditam que o país entrou, pelo menos, num período de crescimento anual estável na casa dos 6,5% - um nível em linha com o potencial. O Fundo Monetário Internacional partilhou desta visão no seu último World Economic Outlook, onde previu que a economia avançasse 6,8% em 2017 e 6,5% em 2018.

 

Não estou tão optimista. Durante décadas, o investimento em activos fixos foi o principal motor do crescimento, representando quase metade da procura total. A sua percentagem no PIB da China ultrapassa hoje os 50%, enquanto o investimento, calculado como formação residual de capital, representa cerca de 45% do PIB.

 

Ainda assim, desde o final de 2013, o crescimento do investimento tem estado em queda, uma tendência que acelerou no segundo semestre de 2017. Nos três primeiros trimestres de 2017, o investimento em activos fixos cresceu a uma taxa média de apenas 2,19% ano a ano. No terceiro trimestre, o crescimento do investimento foi negativo, -1,1%. A China não atingia níveis tão baixos em décadas.

 

Da perspectiva do ajustamento estrutural, a diminuição da dependência do investimento em activos fixos deveria ser aclamada como uma conquista. Mas, como enfatizou Martin Wolf no Financial Times em 2016, vai ser muito difícil para a China manter a procura agregada devido ao abrandamento da expansão do investimento.

 

O consumo das famílias dificilmente vai compensar este abrandamento. Nos três primeiros trimestres de 2017, o consumo privado cresceu 5,9% em termos reais (ou seja, ajustado à inflação) – menos 0,5 pontos percentuais do que em 2016. É difícil prever uma subida rápida do consumo das famílias em 2018.

 

O crescimento das exportações líquidas também não deverá compensar o declínio do investimento, em especial porque o presidente dos EUA, Donald Trump, continua a inclinar-se na direcção do proteccionismo no que diz respeito à China. E apesar de se esperar que a China continue a usar as políticas orçamentais para apoiar a procura, a medida em que pode fazê-lo vai ser limitada por factores como o fardo da dívida dos governos locais e o consequente repressão dos chamados veículos financeiros dos governos locais. O governo provavelmente não vai permitir que o défice orçamental ultrapasse os 3% do PIB.

 

O investimento chinês em activos fixos é composto por três categorias principais: produção, infra-estruturas e imobiliário. O investimento na produção representa a percentagem mais elevada - 30%. Mas tem vindo a diminuir de forma constante desde 2012, enfraquecendo o crescimento do investimento global. E é pouco provável que recupere novamente, a menos que a China alcance algum avanço tecnológico ou institucional.

 

Entretanto, o investimento em imobiliário acompanhou o padrão cíclico durante as últimas duas décadas, recuperando fortemente no início de 2016 antes de cair novamente em 2017. Dada a determinação do governo em conter o preço das casas – que, em várias alturas, suscitou receios de que estivessem a formar-se bolhas localmente – há poucos motivos para esperar que o investimento em imobiliário vá recuperar em breve.

 

Isto deixa apenas o investimento em infra-estruturas, cuja percentagem em relação ao investimento total tem vindo a diminuir desde 2012. Mas o investimento em infra-estruturas alcançou já um nível tão elevado que, se continuasse a crescer, poderia piorar a alocação de recursos – que é o oposto aos objectivos do governo. Dado os constrangimentos orçamentais e a regulação financeira, que está mais rigorosa, será difícil uma expansão maior do investimento em infra-estruturas.

 

Tudo isto leva a uma conclusão simples: a menos que eu tenha feito uma leitura errada das estatísticas oficiais do investimento, o optimismo em torno do crescimento económico da China em 2018 não está garantido. Mas isto não significa que as perspectivas para a China, no geral, sejam sombrias. Se parecer que o crescimento económico está a cair de modo a ficar abaixo da meta de 6,5%, o governo vai aplicar ferramentas de estabilização macroeconómica - isto apesar dos custos futuros elevados que isso terá - enquanto trabalha para evitar que as vulnerabilidades financeiras se tornem em vulnerabilidades sistémicas. Mais promissores são os esforços actuais do governo chinês para cultivar a inovação e para implementar reformas estruturais que, provavelmente, vão produzir grandes retornos a longo prazo.

 

Tudo isto sugere que a montanha russa económica da China enfrentará outra subida e que o crescimento vai estabilizar numa taxa decente. Mas, como nas atracções mais populares, os seus passageiros podem ter de esperar um bocadinho.

 

Yu Yongding, antigo presidente China Society of World Economics e ex-director do Instituto de Economia e Política Mundial na Academia Chinesa de Ciências Sociais, esteve no Comité de Política Monetária no Banco Popular da China entre 2004 e 2006.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
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Tradução: Ana Laranjeiro

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