Jim O'Neill
Jim O'Neill 06 de setembro de 2017 às 14:00

Terminar com os empregos do pós-crise

O Ocidente precisa de investimentos reais, de uma produtividade mais elevada e de crescimento dos salários – e não de mais lucros que, em termos económicos, não são justificados.

9 de Agosto de 2017 marcou o décimo aniversário da decisão do banco francês BNP Paribas de congelar cerca de 2,2 mil milhões de dólares em fundos do mercado monetário. Nós, que estávamos activos nos mercados financeiros naquela altura, lembramo-nos que esse evento foi o começo da pior crise financeira global desde a Grande Depressão.

 

Muitos economistas e observadores financeiros argumentam que continuamos a viver com as consequências dessa crise e com as forças que a incitaram. Isto é, em parte, verdade. Muitas economias desenvolvidas continuam a ter em curso políticas monetárias não convencionais como o quantatitive easing, e tanto a produtividade como o crescimento dos salários (ajustados à inflação) parecem estar estagnados.

 

Mas é importante colocar estes desenvolvimentos em perspectiva. Muitas pessoas, incluindo a Rainha de Inglaterra em Novembro de 2008, continuam a perguntar: "Porque é que ninguém viu que isto ia acontecer?". Na verdade, muitos observadores financeiros alertaram que o preço das casas nos Estados Unidos estava a subir de uma forma insustentável, em especial devido à falta de poupanças pessoais entre os consumidores norte-americanos.

 

Como economista-chefe no Goldman Sachs naquela altura, escrevi três artigos diferentes sobre o número de anos que mostravam que o défice norte-americano da conta corrente era insustentável. Infelizmente, essas conclusões caíram sobretudo em ouvidos moucos, e o pessoal de vendas de divisas da empresa provavelmente ficou aborrecido de transmitir as mesmas coisas aos seus clientes.

 

A dada altura em 2007, foi revelado que o défice norte-americano da conta corrente estava nos 6-7% do PIB (desde então foi revisto em baixa para 5% para o total do ano). Este número elevado reflecte o facto de a balança comercial dos EUA ter estado a deteriorar-se constantemente desde da década de 1990. Contudo, na ausência de qualquer consequência óbvia, a complacência começou e os Estados Unidos continuaram a gastar mais do que pouparam.

 

Entretanto, durante a década de 1990, a China esteve a exportar produtos com baixo valor acrescentado para o resto do mundo, incluindo para os consumidores americanos. Em 2007, o excedente da conta corrente da China estava em cerca de 10% do PIB – um reflexo dos Estados Unidos. Enquanto os EUA estavam a poupar muito pouco, a China estava a poupar em demasia.

 

Para alguns observadores, este forte desequilíbrio internacional foi a fonte da crise. Nos anos que levaram à crise, eles argumentaram que o sistema financeiro mundial fez simplesmente o seu trabalho ao encontrar formas inteligentes de reciclar os excedentes. Claro que sabemos agora que desempenharam o seu trabalho de forma relativamente fraca.

 

Muito mudou na década seguinte. Em 2017, a China registou um excedente da conta corrente de 1,5 a 2% do PIB e os Estados Unidos provavelmente tiveram um défice de cerca de 2% - possivelmente nos 3% - do PIB. Isto é uma ampla melhoria para as duas maiores economias mundiais.

 

Ainda assim, outros países construíram desequilíbrios ainda maiores da conta corrente durante a última década. Entre eles está a Alemanha, cujo excedente externo ultrapassa agora os 8% do PIB. A conta corrente da Alemanha sugere que há desequilíbrios profundos que podem levar a uma nova crise se as políticas não estiverem bem coordenadas. A última coisa que a Europa precisa é de outro retrocesso súbito, como vimos no auge da crise de dívida grega.

 

Por sua vez, o Reino Unido vai ter este ano um défice da conta corrente acima dos 3% do PIB, o que é quase três vezes mais do que tinha há dez anos. Mas isso não significa que a balança comercial britânica se deteriorou significativamente. Em vez disso, reflecte o facto de o Reino Unido ser um grande centro financeiro e de os retornos do investimento se terem deslocado mais do Reino Unido do que de outros locais.

 

Globalmente, a economia mundial está hoje muito mais saudável do que estava há dez anos. Muitos estão desapontados com o facto de o crescimento real global do PIB, desde a crise, ter tido um desempenho que não acompanha o crescimento da década anterior. Mas desde 2009 – o pior ano da recessão – a economia mundial cresceu a uma taxa média de 3,3%, tal como tinha acontecido na década de 1980 e 1990.

 

Claro que isto se deve sobretudo à China, o único país dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) que correspondeu às minhas expectativas de crescimento para a década (embora a Índia não tenha ficado muito atrás). A dimensão da economia chinesa mais do que triplicou em termos nominais desde 2007, com o PIB a subir de 3,5 biliões de dólares para cerca de 12 biliões de dólares. Em resultado disto, a dimensão agregada das economias BRIC está agora em cerca de 18 biliões de dólares, que é mais do que o tamanho da União Europeia e quase tão grande como os Estados Unidos.

 

Vai inevitavelmente existir outra bolha financeira, por isso vale a pena perguntar onde é que pode ocorrer. Na minha perspectiva, é pouco provável que surja no sector bancário, que está agora sob forte regulação. A maior preocupação é que muitas das principais empresas, de diferentes sectores, continuam a focar-se excessivamente nos lucros trimestrais porque isso determina a forma como os executivos são remunerados.

 

Os políticos deviam olhar para o papel que a recompra de acções tem neste processo. A primeira-ministra britânica, Theresa May, merece crédito por isto porque no manifesto eleitoral de 2017 do Partido Conservador ela refere que vai prestar atenção ao tema. Esperemos que o governo de May o faça. Fazer isso pode representar um golpe simbólico contra o mal-estar subjacente à vida económica do pós-crise. O Ocidente precisa de investimentos reais, de uma produtividade mais elevada e de crescimento dos salários – e não de mais lucros que, em termos económicos, não são justificados.

 

Jim O’Neill, ex-presidente da Goldman Sachs Asset Management, é professor honorário de Economia na Universidade de Manchester e antigo presidente da revisão sobre a Resistência Antimicrobiana do governo britânico.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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