João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 12 de dezembro de 2017 às 20:45

Theresa May não vai longe

A ilusão de soberania total, o estatuto privilegiado no trato com a União Europeia e os ganhos orçamentais substanciais em proveito do Reino Unido diluem-se pouco a pouco entre o eleitorado britânico, mas continua a prevalecer a opção pelo Brexit.

Um mau resultado final nas negociações entre Londres e Bruxelas por culpa, sobretudo, do executivo conservador é esperado pela maioria dos inquiridos pelo NatCen Social Research em estudo acabado de divulgar.

 

Entre Fevereiro e Outubro, o número de inquiridos a considerar "má" a condução das negociações por parte do governo subiu de 15% para 61%, engrossando os votantes pelo Brexit a maioria (52%) que antevê uma conclusão das conversações em detrimento do Reino Unido, em contraste com 19% de pessimistas registados no início do ano.

 

O inquérito do centro de investigação londrino nota, contudo, que num hipotético voto em novo referendo seria provável que triunfasse a opção pela ruptura com a UE que colheu 52% dos votos em Junho de 2016.

 

A compreensão de que um eventual acordo comercial implica limitações de soberania, designadamente quanto a jurisprudência do Tribunal de Justiça da UE, faz-se notar, mas a volatibilidade do eleitorado britânico é assinalável.

 

A desorientação e as agruras do governo de Theresa May acentuaram-se nos últimos dois meses sendo difícil avaliar o impacto na opinião pública de concessões que implicam, por exemplo, a aceitação vinculativa de compensações financeiras no montante entre 40 a 45 mil milhões de euros.

 

A salvaguarda dos direitos de cerca de um milhão de britânicos residentes na UE representa, também, a jurisdição do Tribunal do Luxemburgo quanto a direitos de mais de três milhões de cidadãos da UE no Reino Unido por período de oito anos após o Brexit de Março de 2019.

 

O putativo acordo quanto aos seis condados do Ulster deixa, por sua vez, em aberto a definição de estatuto especial para a Irlanda do Norte que justificaria reivindicações similares por parte de entidades políticas e administrativas como a Greater London Authority, liderada por Sadiq Khan, e a Escócia de Nicola Sturgeon.

 

Se a fronteira entre o Reino Unido e a UE passar pelo mar da Irlanda, na ausência de controlo aduaneiro entre o Eire e o Ulster, estará em causa a Commom Travel Area, instituída na década de 20 do século passado entre o Reino Unido, a Ilha de Man e as Ilhas do Canal. 

 

Um acordo comercial preservando acesso ao mercado único europeu e um período de transição, eventualmente renovável por prazos a definir, dificilmente será negociado em termos favoráveis a Londres.

 

A capacidade negocial do Reino Unido começa a reduzir-se à medida que se acentua a saída de empresas de serviços e a queda do investimento directo estrangeiro, não estando claro o quadro de cooperação com os 27 nas áreas de defesa e segurança, em que Londres conta com trunfos assinaláveis, ou a importância que possa vir a assumir a questão de Gibraltar.     

 

Sem virtude ou clarividência políticas que se façam notar, May arrisca sucumbir à demagogia de rivais como o ministro do Ambiente Michael Gove, proponente de um Brexit "à outrance", conforme se dizia antigamente nos conciliábulos diplomáticos.

 

Os trabalhistas de Jeremy Corbin aficam-se à ilusão de um Brexit que garanta vantagens da união aduaneira, mercado único de mercadorias, serviços e capitais, claudicando, assim, como oposição capaz de apresentar alternativa negocial em tempo útil.

 

É pouco crível que May venha a assinar como chefe do governo de Londres um compromisso que valha ratificação unânime pelos 27 e o Parlamento Europeu até Março de 2019.  

          

Nota: Inquérito do NatCen disponível em: https://whatukthinks.org/eu/wp-content/uploads/2017/12/EU-Briefing-Paper-11-Half-time-brexit-negotiations.pdf

 

Jornalista

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