João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 29 de agosto de 2017 às 19:50

Tiquetaque e o míssil vai cair 

Passavam 58 minutos das 05:00 horas em Tóquio quando foi disparado um míssil do aeroporto internacional de Pyongyang em direcção ao mar do Japão e a ameaça de guerra na Ásia Oriental se agigantou na última terça-feira de Agosto.

O alarme soou quatro minutos depois em Hokkaido, a maior ilha do Norte do Japão, após o disparo colocar o projéctil numa rota de sobrevoo às 06:06.

 

O míssil balístico, atingindo uma altitude de 550 quilómetros, cruzou o Sul da ilha durante dois minutos, dividiu-se em três partes após reentrar na atmosfera, e concluiu 14 minutos de voo despenhando-se a 1.180 quilómetros da costa, fora da zona económica exclusiva nipónica.

 

Os comandos militares sul-coreanos, japoneses e norte-americanos afirmam ter excluído uma intercepção por determinarem imediatamente após o lançamento não existir perigo significativo de impacto em solo nipónico.

 

Eventuais ameaças para a navegação aérea e marítima, descontrolo na trajectória, explosão prematura e dispersão de estilhaços poderão ou não ter entrado em linha de conta.

 

O alerta para refúgio imediato em zonas seguras abarcou doze municípios do Norte do arquipélago, levou à suspensão dos comboios-foguete e outros transportes ferroviários em Hokkaido, e afectou serviços de caminho-de-ferro em Tóquio e no município de Kanagawa, também na ilha de Honshu.

 

A eficácia das baterias de interceptores Patriot (PAC-3) ao dispor das forças de autodefesa japonesas e dos militares norte-americanos no arquipélago ficou por demonstrar.

 

O sobrevoo de Hokkaido por um míssil balístico, capaz de transportar carga explosiva, coincidiu com o início de exercícios conjuntos norte-americanos e japoneses em Tóquio e noutros locais do arquipélago para testar a prontidão de interceptores de mísseis de curto e médio alcance.   

 

Ao contrário dos foguetes que em 1998 e 2009 sobrevoaram o Japão para alegada colocação de satélites de telecomunicações em órbita, este teste de um míssil balístico com alcance superior a 5 mil quilómetros demonstrou a capacidade de Pyongyang visar não apenas o arquipélago, mas inclusivamente a ilha norte-americana de Guam.

 

Em resposta aos exercícios militares anuais norte-americanos e sul-coreanos de Agosto, a Coreia do Norte lançou, entretanto, dois mísseis de curto alcance com sucesso, fracassando um terceiro disparo, enquanto a Coreia do Sul testou com êxito dois mísseis com alcance de 500 e 800 quilómetros contra alvos em terra e no mar.  

 

Desde Janeiro, treze disparos de mísseis, incluindo dois testes bem-sucedidos em Julho de mísseis intercontinentais com alcance de 10 mil, são ainda insuficientes para apurar a eficácia do arsenal norte-coreano.

 

Pyongyang necessita de efectuar mais lançamentos para testar a reentrada na atmosfera e fases terminais de voo, ignorando-se quais os avanços na miniaturização de ogivas nucleares.

 

Sinais de actividade no centro de testes nucleares de Punggye-ri, no Nordeste do país, apontam, por sua vez, para a possibilidade de a Coreia do Norte se preparar para a sexta explosão atómica.  

 

A via de comunicações acerca de conversações entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte encontra-se bloqueada e Washington tem urgência em demonstrar capacidade de dissuasão militar.

 

A China evita cortar os vitais fornecimentos de petróleo à Coreia do Norte e, tal como Moscovo, duvida de que o regime de Kim Jong-Un se vergue a sanções, enquanto a insegurança de Tóquio e a vulnerabilidade de Seul alimentam dúvidas quanto à estratégia de Washington.

 

Tiquetaque e a guerra é cada vez mais provável.

 

Jornalista

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