Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 01 de junho de 2017 às 00:01

Tomar o destino 

Juncker até pode não fazer mais nada de especial, mas as circunstâncias do mundo podem levar a União Europeia a construir um novo edifício que há muito se aguarda.

Donald Trump parece ter sido escolhido para pôr termo à configuração geoestratégica que, em termos gerais, vigora desde a queda do Muro de Berlim, ou seja, desde 1989, e em termos mais amplos, desde a II Guerra Mundial, ou seja, desde 1945. Em todo este período, para não falar, por razões óbvias, do que está para trás, os Estados Unidos e a Europa Ocidental foram como que irmãos siameses, não sendo capaz de viver um sem o outro. Não foi com Donald Trump que começaram os primeiros sinais de afastamento norte-americano em relação ao continente europeu. Manda a verdade dizer que já com Barack Obama esse distanciamento foi muito acentuado. E escrevi aqui sobre isso. Angela Merkel vem agora dar razão a Charles de Gaulle - por triste coincidência, numa altura em que profanaram a campa funerária do carismático líder francês -, ou seja, em matéria de Segurança e Defesa, o controlo tem de estar nas próprias mãos. Agora que foi eleito Emmanuel Macron, de quem alguns dizem ter algo de Charles de Gaulle, essa linha acentua-se. Curiosamente, Macron encontrou-se com Vladimir Putin, mas também com o líder da oposição síria, de quem os russos pouco ou nada querem saber. Assim, e com outras atitudes, Macron marca o seu caminho, o qual é ainda muito cedo para avaliar. O que aqui importa sublinhar é que com a declaração de Merkel em Munique, ao exteriorizar o seu pensamento e o seu sentimento de que os europeus já não podem contar com os antigos aliados, nomeadamente os EUA e o Reino Unido, pode estar a nascer um novo ciclo de pujança no projeto europeu. Se Alemanha e França forem capazes de seduzir os outros países europeus que querem continuar "dentro" para um novo projeto, em que os pilares da Segurança, da Defesa estejam intimamente associados ao novo pacote em matéria de União Bancária e Monetária - esta semana apresentado pelos dois comissários dos pelouros, Valdis Dombrovskis e Pierre Moscovici -, a que se poderão juntar matérias como a da progressiva harmonização fiscal, então poderemos estar perante um relançamento da ideia de uma Europa coesa e solidária. Ou seja, ao fim e ao cabo, Donald Trump, no meio da sua insólita atuação, pode acabar por prestar um serviço à União Europeia.

 

Por vezes, os bons serviços e os bons resultados vêm de onde e quando menos se espera. Além de Donald Trump, também não se tem esperado nada de significativo de Jean-Claude Juncker. Aliás, o presidente da Comissão Europeia já anunciou que não se candidatará a novo mandato e ninguém tem esperado nada de substancial da sua parte. Mas a verdade é que já apresentou o chamado Plano Juncker e mais recentemente foi ao Parlamento Europeu apresentar as regras que deverão pautar a nova fase da União Europeia, enunciando a possibilidade de existirem diferentes velocidades. Na verdade, Ortega y Gasset tinha razão, nós somos também as nossas circunstâncias. Juncker até pode não fazer mais nada de especial, mas as circunstâncias do mundo podem levar a União Europeia a construir um novo edifício que há muito se aguarda. Juntando esse enquadramento político aos ventos económicos que sopram no sentido do crescimento, poderá renascer a energia necessária para dar, a um projeto que se tem considerado decadente, num novo rumo, novo alento, uma nova força. Não há, por enquanto, um líder europeu óbvio para esse processo. Mas detetam-se sinais vários de convergência de vontades distintas, para os que permanecem ligados à União conseguirem levá-la por diante. Já é tempo ou como também se diz, já não era sem tempo.  

 

Advogado

 

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comentários mais recentes
Ortigao.Sao.Payo 01.06.2017

Seria bom que explicassem a este poeta que o erro esta6no eixo francoalemao pois voltamos ao século x em que o ultimo imperior romano se baseava mas lideradodos um franco, as liderança germânica são mais que perigosa