Rui Patrício
Rui Patrício 03 de fevereiro de 2017 às 00:01

Treinadores de bancada da justiça, "revisited" 

Num livrinho que publiquei em 2011 ("Mapa-Múndi da Justiça"), incluí um texto, escrito numa visita à Malásia há cerca de 10 anos, em que contava uma pequena história e com ela comparava os opinantes sobre temas de justiça aos treinadores de bancada do futebol.

E fazia-o em tom bastante crítico. Não renego esse texto. Aliás, os anos entretanto decorridos e o que neles entre nós aconteceu em matéria de opinião sobre temas de justiça e processos fizeram com que eu muitas vezes o recordasse e pensasse que poderia hoje voltar a publicá-lo. Mas uma coisa é certa, e é isso que quero agora salientar, sobretudo tendo presente o frenesim opinativo sobre um processo em que intervenho como advogado (ao qual chamam Operação Marquês) e especialmente um episódio recente do mesmo em que estive diretamente envolvido: é que naquele texto fui injusto na comparação, fui injusto para os treinadores de bancada do futebol. Direi aqui e agora porquê, sendo que as razões são duas. Mas não haja inquietações, não falarei evidentemente sobre o processo; desde logo porque em Portugal os advogados e os outros agentes do judiciário não devem falar dos seus casos concretos, deixando essa atividade à opinião de quem pouco ou nada sabe da matéria (incluindo opinantes de generalidades e especialistas do "et cetera" e até oráculos da nação) ou a outros interessados (e às vezes muito "engagé") nos assuntos em causa.

 

Primeira razão, e "brevitatis causa": os treinadores de bancada da justiça ou de processos podem causar um mal maior do que os que se digladiam no dia seguinte sobre o jogo da véspera. Seja porque o que está em causa na justiça é muito mais sério (sem desprimor para o desporto-rei). Seja porque as agendas, as filiações e as intenções de quem fala de bola são bem mais claras, e por isso bem menos perversas, do que as de muitos que mandam "bitaites" sobre justiça e processos e que, mesmo não sabendo às vezes do que falam, não conseguem estar calados e resistir ao horror da folha em branco ou do espaço televisivo ou radiofónico por preencher.

 

Segunda razão: embora uns e outros comentem e opinem do alto do conforto que a bancada dá, sem terem a responsabilidade, o trabalho e os encargos, gostos e desgostos da intervenção concreta (ou seja, nem uns nem outros treinam ou jogam, limitam-se a falar), a verdade é que quem treina futebol a partir da bancada fá-lo, pelo menos, sobre algo que viu, ou seja, o jogo. Fala de lances, e viu-os, opina sobre fintas, e viu-as, os dribles, os remates, as faltas e os golos foram à vista de todos, e por isso quem comenta e opina não o faz sobre suposições, especulações, adivinhas ou processos de intenção. Mas isso não acontece em muitos casos de treinadores de bancada da justiça ou de processos, que falam sobre o que não conhecem ou não conhecem bem, que especulam sobre especulações, que constroem teses sobre suposições, colocando-se em bicos de pés sobre bases cuja solidez não sabem sequer se existe, porque não viram, não ouviram, não conhecem, não leram e não apreciaram. Simplesmente, não resistem ao pedido de opinião ou, mais grave, não conseguem estar calados. Gerir o silêncio é-lhes estranho, têm horror a dizer que não falam porque não sabem. É pena e é triste, sobretudo quando quem opina tem especial obrigação - pela experiência de vida, pelo estatuto e/ou pela profissão - de saber que o silêncio, mesmo sendo difícil, pode ser uma belíssima virtude, quer privada, quer sobretudo pública.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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comentários mais recentes
Ciifrão Há 2 semanas

Tem alguma razão, o país é diariamente inundado de ideias presunçosas mal fundamentadas. Por outro lado devia ter em mente que os advogados, como os maiores abusadores da manipulação de ideias, não se podem escandalizar muito quando provam o próprio veneno

Resposta de 1230cfa Ciifrão Há 2 semanas

Penso que se está a referir ao colega, Adv. do Engº José Sócrates. Pelo que vi SIC Noticias (entrevista da Clara de Sousa) e pelo timing deste artigo, não posso concluir de modo diferente.