Zhang Jun
Zhang Jun 08 de dezembro de 2016 às 20:00

Três ameaças à economia da China

Para que a China tenha sucesso na sua reestruturação económica, modernização industrial e expansão dos serviços de alta produtividade, o papel das empresas públicas deve ser limitado a alguns sectores relevantes.

Depois de um "milagre do crescimento" que durou décadas, a economia chinesa tornou-se uma fonte de crescente preocupação. Alguns factores – desde a elevada dívida das empresas ao excesso de capacidade no sector estatal - receberam muita atenção. Mas três tendências menos discutidas apontam para outras ameaças ao desenvolvimento económico do país.

 

Em primeiro lugar, apesar da queda do crescimento do PIB, o financiamento social - e especialmente o crédito - aumentou. Isto tem uma relação directa com o problema da dívida da China: a renovação contínua de grandes dívidas cria uma procura constante por liquidez, mesmo que o investimento real não aumente. Essa "expansão do crédito" não é sustentável.

 

Não há dúvida de que a questão da dívida deve ser resolvida. E o governo chinês vem trabalhando para o fazer, implementando políticas destinadas a apoiar a reestruturação da dívida. Por exemplo, o governo central ajudou as autoridades locais a substituir 3,2 biliões de yuan (cerca de 427 mil milhões de euros) de dívida arriscada em 2015, e 5 biliões este ano. O seu plano de troca de dívida por acções poderia aumentar o impacto desses esforços.

 

Mas estas estratégias não podem resolver totalmente o problema da dívida da China, até porque a maior parte da dívida é detida por empresas estatais. Uma solução que tem sido proposta implicaria uma ampla reestruturação das grandes empresas públicas. A venda ou transferência de activos estatais cobriria os passivos, retirando o sector estatal do seu status quo de endividamento. Esta abordagem criaria igualmente uma oportunidade para promover a privatização, o que poderia reforçar a inovação e a competitividade.

 

A segunda tendência de risco é o rápido declínio do investimento em activos fixos, de 20% para cerca de 8% hoje em dia. O declínio tem sido particularmente acentuado no sector privado. Entre 2002 e 2012, o crescimento do investimento do sector privado foi, em média, de cerca de 20%. No final do ano passado, foi de apenas 10%, e de Janeiro a Agosto deste ano desceu para 2,1%, incluindo uma impressionante contracção de 1,2% em Julho. O investimento em imóveis também desacelerou, tendo aumentado pouco mais de 1% no ano passado, devido a uma série de restrições políticas.

 

Dado que o investimento privado representa, pelo menos, 60% do investimento total na indústria, esta evolução terá certamente consequências macroeconómicas. E, ainda que o crescimento de dois dígitos no investimento do sector estatal atenue o efeito geral, essa tendência também reflecte problemas com o domínio do sector estatal. As empresas privadas lutam para conseguir crédito dos bancos comerciais estatais e estão em desvantagem no mercado de financiamento directo. Além disso, as empresas privadas estão impedidas de entrar em indústrias de capital intensivo dominadas pelas empresas do Estado. Na maior parte dos sectores de serviços modernos, a percentagem de intervenientes não estatais continua a ser pequena, limitando o investimento privado.

 

A terceira tendência que deve preocupar a China é o desemprego que permanece relativamente estável. Dado que a taxa de desemprego não é excessivamente alta, isso pode parecer uma coisa boa. Mas reflecte algumas tendências negativas - começando com a fraqueza a longo prazo no crescimento da produtividade.

 

A taxa de crescimento da produtividade da China, que foi de 8%, em média, nos últimos 20 anos, pode ter caído agora para menos de 6%. E o país não está propriamente bem posicionado para um aumento na produtividade. De acordo com o gabinete nacional de estatística, o sector dos serviços tem ultrapassado largamente a indústria no crescimento do emprego desde 2010, uma inversão da tendência anterior.

 

Dada a necessidade da China de se afastar da indústria, isso não é uma má notícia. Mas a maioria dos empregos do sector de serviços que estão a ser criados são em actividades de baixa produtividade e remuneração. Pior, trata-se frequentemente de empregos informais caracterizados por uma grande rotatividade, o que impede a acumulação de capital humano.

 

Os níveis estáveis de emprego na China também reflectem - mais uma vez - as deficiências no sector estatal. Poucos trabalhadores foram libertados das empresas estatais, apesar da desaceleração geral do crescimento. Por outras palavras, há um nível considerável de desemprego oculto no sector estatal da China, que já está atormentado por outros tipos de capacidade excedentária.

 

A China não tem nenhuma opção fácil para resolver este problema. Se o governo continuar a apoiar as empresas estatais, especialmente empresas "zombie", a concentração de um grande número de trabalhadores em empresas estatais estagnadas e de baixa produtividade continuará a minar o crescimento da produtividade. Mas se a China apostar numa reestruturação do sector estatal, o desemprego aumentará. E, uma vez desempregados, os trabalhadores do sector público tendem a demorar muito mais para encontrar um novo emprego do que os seus homólogos do sector privado.

 

No entanto, a reestruturação do sector público parece inevitável. Na verdade, ajudaria a resolver alguns dos desafios mais importantes que a China enfrenta, desde a dívida e o excesso de capacidade até à falta de competitividade.

 

Alguns defendem que as empresas estatais devem continuar as suas operações devido aos seus enormes lucros. Mas esses lucros são o resultado da sua posição monopolista e do grande investimento estatal, que traz retornos mais baixos do que o investimento do sector privado. É por isso que os progressos na reforma das empresas públicas são tão urgentes, independentemente dos desafios a curto e médio prazo que possam criar.

 

Há duas décadas, o então primeiro-ministro Zhu Rongji começou a implementar essa reforma, com o objectivo de reforçar a eficiência das empresas públicas e criar espaço para o investimento do sector privado. Mas as reformas foram incompletas, e algumas até foram revertidas, com as estatais a recuperarem quota de mercado em alguns casos.

 

Em 2013, o Terceiro Plenário do 18º Comité Central do Partido Comunista da China assumiu o comando, com um plano para reformar as empresas estatais por meio de uma propriedade mista. Mas também aqui o progresso tem sido insuficiente. E, de facto, sem uma reorganização estratégica das empresas públicas, a propriedade mista tornar-se-á uma característica apenas dos sectores não-essenciais.

 

Para que a China tenha sucesso na sua reestruturação económica, modernização industrial e expansão dos serviços de alta produtividade, o papel das empresas públicas deve ser limitado a alguns sectores relevantes. Só assim a China poderá retomar o seu dinamismo e manter o seu desenvolvimento económico no bom caminho.

 

Zhang Jun é professor de Economia e director do Centro de Estudos Económicos da China, da Universidade Fudan.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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Anónimo Há 3 dias

Como a China parece ter falta de geniais gestores privados, poderiamos fazer-lhe um grande favor, em nome da Amizade Luso-Chinesa, e enviar para lá aqueles magníficos e inesquecíveis gestores que nos legaram o BPN...o BPP...o BCP...o BES...o BANIF...a CGD!
Em troca de um pudim...chinês!