Fernando  Sobral
Fernando Sobral 10 de Novembro de 2016 às 19:40

Trump e o destino da Europa

A vitória de Donald Trump é uma forte mensagem a esta Europa pretensamente unida que se vai desfazendo defronte dos nossos olhos. Não admirou a euforia de Marine Le Pen ou de Nigel Farage.

Ou as palavras envergonhadas de François Hollande ou de Angela Merkel. Trump vem agitar as águas mornas onde se move a UE e fazer com que ela tenha de finalmente se defrontar com o seu destino. A política económica de Trump vai ser contrária à austeridade militante da Europa; mesmo que externamente a sua política não se altere de forma muito substancial, a Europa terá de deixar de contar tanto com o guarda-chuva americano em termos de segurança; a partir de agora ou a Europa do norte percebe a importância estratégica do sul, nas fronteiras do Médio Oriente, e tem de atender economicamente a essa variável, ou a cisão será cada vez maior; o nacionalismo encontra também em Trump um impulso. A Europa, esse velho sonho concebido como a continuação cristã do Império Romano a partir da coroação de Carlos Magno no dia de Natal de 800, e que foi visto como o nascimento do Ocidente, está defronte do seu destino.

 

Os próximos meses serão vitais: eleições na Itália, França, Alemanha e Holanda. Traves-mestras da UE. Por outro lado a pressão económica da austeridade está a radicalizar as classes médias dos países mais periféricos e a emigração a tornar mais nacionalistas os do centro e norte da Europa. O império europeu esboroa-se. É interessante. Os maiores países europeus gostam de se ver como uma versão melhorada do império romano. A cada momento Paris, Londres, Madrid, Berlim ou Lisboa sentiram-se como a Roma do seu tempo de glória. Os arcos do triunfo que pululam por estas cidades dizem muito sobre isso: a arquitectura é um símbolo desse sonho. A crise económica (mas também de estratégia) da UE nos últimos anos não foi apenas um percalço: tornou-se o símbolo de um processo de decadência que se arrasta. Deixou de haver um sonho comum: há regras e leis que acorrentam nações para salvar um único objectivo, o euro. Se olharmos para o período final do império romano deparamo-nos com o mesmo: um lento estrangulamento económico, um suicídio demográfico, populações exteriores ao império que o invadiram, seja de forma pacífica ou guerreira. Contra essas ameaças levantaram-se barreiras como a Emérita Augusta. A queda foi lenta e durou quase um século. O império foi-se incinerando por dentro, destruindo valores e homens, aniquilando equilíbrios sociais e criando populismos.

 

A eleição de Donald Trump faz com que a Europa dirigida por Berlim tenha de olhar para o espelho. E decida de uma vez por todas se quer continuar neste lento suicídio controlado por burocratas de Bruxelas ou se quer alterar algo de substancial para que o império não caia com estrondo um dia destes. A forma como a UE tratou dos problemas como a Grécia ou Portugal tem sido vergonhosa. Não tem tido em consideração nada do que é importante para lá da mesquinhez com que o norte olha para o sul. Na questão dos migrantes que chegavam aos milhares à Grécia viu-se como se comportou a UE: de forma miserável. Se a grande união europeia é isto, dirão muitos, não a quero. Trump explica porque um dia a revolta surda se faz ouvir como um relâmpago.

 

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