João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 14 de novembro de 2017 às 20:00

Trump e o mundo de lá

Mais confusão e incerteza são o saldo da adopção pela administração Trump da denominação Indo-Pacífico para uma alegada "área estratégica singular", estendendo-se dos Estados Unidos à Índia.

Em preparação da incursão asiática do Presidente, o secretário de Estado Rex Tillerson sublinhou a premência de um "Indo-Pacífico livre, aberto e próspero", graças à cooperação militar acrescida de Washington com a Índia e o Japão.

 

Em Seul, Trump destacou a aliança com a Coreia do Sul como "fundamental para a estabilidade, a segurança e a prosperidade do Indo-Pacífico", retomando o uso da denominação na cimeira da APEC, em Da Nang, e no encontro de Manila com Rodrigo Duterte.

 

A capital filipina, onde Trump reuniu com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, foi também palco para discussões entre diplomatas da Índia, Austrália, Estados Unidos e Japão sobre a adopção de "medidas para garantir uma ordem internacional livre e aberta no Indo-Pacífico assente no respeito pela lei", nos termos de um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros japonês.  

 

A insistência em Indo-Pacífico, termo usado esporadicamente pelas recentes administrações democráticas e republicanas que privilegiavam as referências a Ásia ou Ásia-Pacífico, marca, de momento, a ascendência de círculos militares, políticos e académicos que advogam a integração da Índia numa estratégia integrada para contenção da China.

 

A adopção de termos de referência geográfica assenta em determinada visão política e estratégica e, assim, Índias Orientais ou Insulíndia, equivalentes ocidentais do Nanyang/mares do Sul da China, por exemplo, deram lugar a Sudeste Asiático.

 

A denominação difundiu-se na sequência da criação, em 1943, pelos Aliados de um Comando do Sudeste Asiático para coordenação das operações militares da Índia e Ceilão (Sri Lanka) até aos domínios da Índias Orientais holandesas, passando pela Indochina Francesa.    

 

O termo de ocasião vingou, mas a complexidade e a diversidade destas áreas continentais e arquipélagos que recriaram influências árabes, persas, indianas, chinesas, melanésias e polinésias, são patentes na falta de coordenação política da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), criada em 1967, e na dificuldade em integrar Timor-Leste e Papua-Nova Guiné.    

 

O trabalhista Gareth Evans, chefe da diplomacia de Camberra, promoveu, por seu turno, na década de 1990, um "Hemisfério da Ásia Oriental" centrado na Austrália, estendendo-se até à Sibéria, a norte, Antárctida, a sul, Birmânia, a ocidente, e o vasto Pacífico, a leste.

 

Esta tentativa de ultrapassar a vetusta política de arrogância e exclusivismo - celebrada na frase "Two Wongs don't make a white" do líder trabalhista Arthur  Calwell nos idos de 1947 - para inserir a Austrália numa região em expansão económica não colheu, contudo, favores entre parceiros asiáticos de Camberra e Estados independentes do Pacífico. 

 

Reticências da Malásia ou Indonésia às pretensões de Camberra levaram, de resto, a que a Austrália só em 2010 fosse admitida, a par da Nova Zelândia e Rússia, no "Diálogo Ásia-Europa", o fórum de intercâmbio diplomático criado em 1996 pela União Europeia, ASEAN, China, Japão e Coreia do Sul.

 

Agora, a reorientação terminológica de Trump estará longe sequer de decalcar para a política e a diplomacia o nível de integração operacional do Comando do Pacífico que coordena os dispositivos militares nos oceanos Pacífico e Antárctico até à costa ocidental da Índia no meridiano 68º leste.

 

De Washington não surgem sinais de qualquer tentativa para integrar a Índia no fórum "Cooperação Económica Ásia-Pacífico" (APEC) instituído em 1989 para promover o "comércio livre" e que congrega 21 Estados da China ao Chile, passando pela Rússia e Canadá.

 

O abandono por Trump da Parceria Transpacífico (TPP), formalizada em 2016 e excluindo a China, obriga, entretanto, os restantes 11 Estados a renegociar acordos de comércio e investimento em confronto com a política de "América Primeiro". 

 

Nas disputas entre a China e a Índia nos Himalaias ou entre Nova Deli e Islamabade, a posição de Washington tem sido equívoca.

 

A Casa Branca tão-pouco se mostra consequente quanto aos diferendos no mar do Sul da China, enquanto as tergiversações e as ameaças no conflito da Coreia agravam as suspeitas em Seul e Tóquio acerca das garantias de segurança dos Estados Unidos.  

 

Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque, implacáveis fundadores do Estado da Índia, sabiam do que falavam quando se referiam nas cartas a D. Manuel ao "mundo de cá" em que Portugal teria de se impor no mar, através da conquista de praças-chave, para dominar o comércio.

 

Visão estratégica e conhecimento da complexidade do mundo de lá é, precisamente, o que falta a Trump e condena à irrelevância a retórica sobre a prosperidade do Indo-Pacífico.

 

Jornalista

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