Andrew Sheng
Xiao Geng
Andrew Sheng | Xiao Geng 21 de Dezembro de 2016 às 20:00

Trump e o sistema monetário internacional

Numa altura de riscos económicos e geopolíticos de longo alcance, os investidores encaram o dólar norte-americano como um activo de refúgio. Mas, com o tempo, podem descobrir que um novo Plaza Accord vai ser necessário.

É difícil saber exactamente o que é que o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, vai fazer quando assumir o cargo em Janeiro. Mas é quase certo que vai diminuir os impostos e aumentar os gastos com as infra-estruturas. Em resultado disto, os mercados financeiros antecipam um crescimento mais rápido dos Estados Unidos – uma percepção que está a impulsionar a taxa de câmbio do dólar face à maioria das divisas, incluindo o yuan, e a levar a uma fuga de capitais dos mercados emergentes.

 

Apesar da promessa de Trump de impor tarifas à China, a valorização do dólar vai prejudicar a competitividade comercial dos Estados Unidos. Afinal, e de acordo com o Fundo Monetário Internacional, o dólar estava já sobrevalorizado em cerca de 10-20% em Junho.

 

Mas isso não é tudo. O comércio é supostamente o motor primário das taxas de juro, que devem subir ou descer de forma a corrigir os desequilíbrios externos dos países, e os fluxos de capitais cresceram até ao ponto em que o seu papel no que diz respeito às taxas de câmbio é agora muito maior. Neste contexto, o optimismo do mercado em relação ao crescimento dos Estados Unidos pode levar a um desequilíbrio ainda maior e a uma possível perturbação do sistema monetário internacional.

 

Em 2010, o antigo governador do Banco de Inglaterra, Mervyn King, usou o jogo Sudoku para mostrar os desequilíbrios mundiais ao nível das poupanças, destacando que os números não podem ser escolhidos ao acaso. Se, por exemplo, todos os países quiserem alcançar uma situação de pleno emprego e os países com elevadas poupanças tiverem como objectivo um excedente comercial, os países com baixas poupanças não podem ter como objectivo um défice comercial baixo. Assim, quando o antigo presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, Ben Bernanke, apontou que a perda de controlo monetário dos Estados Unidos se devia ao "excedente de poupanças" de alguns países, ele tinha razão – pelo menos no que diz respeito aos fluxos comerciais.

 

O que falta a esta análise são os fluxos de investimento. De facto, podemos preencher uma folha de Sudoku para mostrar as responsabilidades do investimento estrangeiro líquido em acções dos países cuja moeda não é usada como reserva sobre os países cuja moeda é utilizada como reserva, sobretudo os Estados Unidos e o Reino Unido. Alguns dos fluxos de investimento relevantes têm vindo a ser financiados através de um excedente de crédito nos mercados internacionais.

 

De 1997 a 2007, o défice líquido do investimento dos Estados Unidos ampliou-se em apenas 300 mil milhões de dólares, enquanto o excedente líquido do investimento da China, do Japão e da Alemanha cresceu para 1.200 mil milhões de dólares, 1.100 mil milhões de dólares e 800 mil milhões de dólares, respectivamente. Os principais actores do grande défice de investimento eram a Zona Euro, com excepção da Alemanha, tendo um défice de 2.400 mil milhões de dólares durante a última década, e o Reino Unido, com um défice de 500 mil milhões de dólares.

 

Durante os sete anos seguintes, até 2014, a posição de investimento líquido dos Estados Unidos deteriorou-se em 5,7 mil milhões de dólares, gerando um passivo de 40,4% do PIB. A posição de investimento líquida da Zona Euro, excluindo a Alemanha, pouco mudou durante este período, devido à contenção de gastos orçamentais. Entretanto, o excedente de investimento líquido da Alemanha aumentou para 800 biliões de dólares, o do Japão subiu para 1.200 mil milhões de dólares e o da China subiu para 700 biliões de dólares. A posição de investimento líquido do resto do mundo fortaleceu-se em três biliões de dólares durante este período, devido sobretudo ao forte crescimento das matérias-primas, um efeito que esmoreceu com o abrandamento da China.

 

O rápido crescimento da dívida bruta dos Estados Unidos face ao resto do mundo está nos dados do Tesouro norte-americano como títulos norte-americanos detidos por estrangeiros, que cresceu para 9 800 biliões de dólares em 2007 para 17 100 biliões de dólares em Junho de 2015, dos quais 10 500 biliões de dólares eram dívida e 6600 biliões de dólares eram acções. A divida norte-americana detida por estrangeiros era equivalente a 95% do PIB dos EUA em Junho de 2015.

 

Perante este cenário, as políticas que vão fortalecer o dólar de forma considerável podem ser altamente problemáticas. Apesar de haver bons argumentos a favor de um investimento em infra-estruturas mais elevado – desde a criação de emprego aos ganhos de produtividade – não é possível ignorar que provavelmente isto vai atrair mais poupanças mundiais, levando a uma valorização ainda maior do dólar.

 

À medida que o dólar valoriza, o valor dos activos estrangeiros denominados em dólares vai cair em termos de dólares, enquanto o passivo do país vai continuar a crescer devido aos défices orçamentais e da conta corrente (que estão agora a rondar os 3-4% do PIB em termos anuais). O resultado vai ser uma deterioração da posição de investimento líquida dos Estados Unidos, que o FMI estima que vá atingir os -63% do PIB em 2021.

 

As experiências recentes sugerem que os países como passivos de investimento líquido, que ascendem a mais de 50% do PIB, têm um risco elevado de ter algum tipo de crise. O padrão pode não ser necessariamente registado por um país que tem uma moeda de reserva dominante em termos mundiais, mas há um risco muito real de uma reversão dos fluxos de capital.

 

A verdade é que é pouco provável que os desequilíbrios induzidos pelo dólar sejam sustentáveis. Os outros países que têm moedas de reserva vão provavelmente continuar a permitir que as suas moedas desvalorizem de forma a reanimar as suas economias. E as economias emergentes provavelmente vão continuar a usar taxas de câmbio para continuar a lidar com a volatilidade dos fluxos de capitais. Se isto continuar, a pressão no sistema monetário internacional vai intensificar-se.

 

Há algo que pode ser feito para aliviar a pressão. Durante a crise económica mundial, a Reserva Federal dos Estados Unidos aliviou os choques mundiais de liquidez ao realizar trocas cambiais com os principais bancos centrais. Hoje, pode fazer trocas semelhantes mas com as moedas a enfrentarem maiores fluxos, o que por conseguinte abranda a apreciação do dólar. A questão é se os Estados Unidos, com Trump na presidência, estão disponíveis para desenvolver acordos de trocas cambiais e outros mecanismos de coordenação com economias emergentes como a Rússia e a China.

 

Há outro caminho pelo qual Trump pode enveredar que é usar o FMI como um instrumento relevante para reforçar a disciplina em países que têm taxas de câmbio subvalorizadas. Trump vê, aparentemente, as instituições internacionais como pouco mais do que mecanismos para tirar as vantagens comerciais e de investimento dos Estados Unidos. Esta abordagem pode colocar tanto o dólar como a estabilidade financeira mundial em risco.

Numa altura de riscos económicos e geopolíticos de longo alcance, os investidores encaram o dólar norte-americano como um activo de refúgio. Mas, com o tempo, podem descobrir que um novo Plaza Accord – acordo assinado em 1985 para desvalorizar o dólar e para impulsionar o iene japonês e o marco alemão – vai ser necessário. Trump comprou o Hotel Plaza três anos depois, mas vendeu-o em 1995. Desta vez, pode vir a ser chamado "Acordo Trump Tower".

 

Andrew Sheng é membro do Fung Global Institute e do Conselho Consultivo de Finanças Sustentáveis da UNEP. Xiao Geng é Director de Investigação no Fung Global Institute.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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