Trump em pé de guerra

Trump, um narcisista maligno, procura a gratificação instantânea e uma "vitória" política. As guerras recentes dos EUA deram a tal gratificação instantânea para depois, rapidamente, darem lugar ao sofrimento.

Quinze anos depois de George W. Bush ter declarado que o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte formavam "o eixo do mal", Donald Trump, no seu discurso inaugural nas Nações Unidas, caracterizou o Irão e a Coreia do Norte também em termos virulentos. As palavras têm consequências e Trump representa uma ameaça grave e imediata à paz mundial, tal como as palavras de Bush representaram em 2002.

 

Naquela altura, Bush foi bastante elogiado pela sua resposta aos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2011. É fácil mobilizar as pessoas para a guerra e isso foi especialmente verdade depois do 11 de Setembro. Ainda assim, em todas as frentes – Afeganistão, Iraque, Irão e Coreia do Norte – o militarismo norte-americano desperdiçou vidas, dinheiro, tempo precioso e a confiança mundial. E a abordagem de Trump é bem mais beligerante – e perigosa – do que a de Bush.

 

Para Trump, tal como acontecia com Bush, há o Bem (América) e o Mal (o Afeganistão sob o regime Talibã, o Irão, a Coreia do Norte e o Iraque sob o regime de Saddam Hussein). A América, o Bem, faz exigências aos malfeitores. Se os malfeitores não obedecerem, a América pode exercer a "opção militar" ou impor sanções punitivas para aplicar a "justiça", como os Estados Unidos a definem.

 

Bush aplicou a lógica da força no Afeganistão e no "eixo do mal" com resultados desastrosos. Os Estados Unidos rapidamente derrubaram o regime Talibã no Afeganistão em 2002 mas não conseguiram garantir a ordem. Passados 15 anos, os Talibãs controlam um território considerável e Trump já ordenou um aumento do número de militares. A despesa militar directa dos Estados Unidos com o Afeganistão ascende a perto de 800 mil milhões de dólares. De facto, os EUA têm estado em guerra nesse país de forma quase incessante desde 1979, quando a CIA interveio secretamente, ajudando a provocar a invasão soviética do Afeganistão.

 

A resposta no Iraque foi ainda pior. Os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 com base em pretensões falsas (as supostas armas de destruição massiva que não existiam), esbanjaram outros 800 mil milhões de dólares em despesa militar directa, destabilizaram o país, provocaram centenas de milhares de mortes e, ao contrário do que estava nos objectivos dos EUA, colocaram a região num tumulto. Os custos indirectos destas duas guerras (incluindo os custos com os veteranos a longo prazo) são praticamente iguais aos custos directos.

 

A abordagem dura de Bush em relação ao Irão também não produziu nenhum dos resultados imaginados. A influência regional do Irão – em particular no Iraque mas também na Síria e no Líbano – é hoje mais forte do que há 15 anos. O desenvolvimento de mísseis balísticos está muito avançado. E a interrupção do desenvolvimento iraniano de armas nucleares deveu-se inteiramente à diplomacia do presidente Barack Obama, não ao militarismo ou às ameaças de Bush.

 

A abordagem de Bush em relação à Coreia do Norte também não foi bem-sucedida. No início de 2002, um acordo frágil entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, assinado em 1994, limitava os esforços dos norte-coreanos no desenvolvimento de armas nucleares, embora os Estados Unidos tenham fechado os olhos a várias partes do acordo. Desprezado pela linha dura da administração Bush, o acordo terminou em 2002 com recriminações mútuas. Em Janeiro de 2003, a Coreia do Norte abandonou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e retomou em força os esforços para desenvolver armas. Agora, o país tem bombas termonucleares e mísseis balísticos.

 

Estes quatro casos reflectem o mesmo fracasso norte-americano. Os Estados Unidos desprezaram repetidamente as negociações por considerarem um sinal de fraqueza e apaziguamento. A abordagem de linha dura foi inicialmente popular entre muitos norte-americanos mas, invariavelmente, terminou em sofrimento.

 

Trump está a duplicar a aposta. Já declarou a sua intenção de abandonar o acordo nuclear com o Irão, assinado não apenas pelos Estados Unidos mas também por quatro outros membros do Conselho de Segurança (China, França, Rússia e Reino Unido) e pela Alemanha. Abandonar o acordo de 2015 seria o equivalente ao abandono do acordo nuclear com a Coreia do Norte, efectuado por Bush. Israel e a Arábia Saudita encorajam de forma imprudente a política de Trump em relação ao Irão, mas os dois países vão perder muito se o acordo cair por terra.

 

No caso da Coreia do Norte, a abordagem de Trump é ainda mais irresponsável, com a ameaça de que os Estados Unidos vão "destruir totalmente" o país se este não abandonar o seu programa nuclear. A probabilidade da Coreia do Norte aceder a esta exigência norte-americana é quase nula. A probabilidade de provocar uma guerra nuclear é elevada e está a crescer. De facto, a Coreia do Norte afirma que os Estados Unidos declararam guerra, embora a Casa Branca tenha negado essa interpretação.

 

Trump, tal como Bush, inverteu a famosa máxima de John F. Kennedy. JFK disse aos americanos que nunca deviam negociar com medo, mas nunca deviam ter medo de negociar. Trump, tal como Bush, rejeitou as negociações por medo de parecer fraco e favoreceu exigências unilaterais suportadas por ameaças ou por força real.

 

Com alguma visão, não seria difícil ver o Irão e os Estados Unidos a cooperarem em muitas frentes, em vez de lançarem ameaças de guerra. Alcançar uma solução de dois estados em Israel e na Palestina também ajudaria a acalmar a posição anti-Israel do Irão.

 

No caso da Coreia do Norte, o regime procura com o seu arsenal nuclear deter as tentativas, lideradas pelos Estados Unidos, de mudança de regime. Esses receios não são totalmente descabidos. Afinal, os Estados Unidos depuseram ou tentaram depor regimes não-nucleares aos quais se opunham, incluindo o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e (sem êxito) a Síria. O regime norte-coreano declarou explicitamente que procura "o equilíbrio militar" com os Estados Unidos de forma a evitar um cenário semelhante.

 

Os Estados Unidos em termos de poder militar sofrem de uma arrogância que está desligada das realidades geopolíticas de hoje. O militarismo falhou várias vezes – e é mais perigoso que nunca. Trump, um narcisista maligno, procura a gratificação instantânea e uma "vitória" política. As guerras recentes dos EUA deram a tal gratificação instantânea para depois, rapidamente, darem lugar ao sofrimento – uma rápida subida para uma descida profunda. Os EUA estão novamente nesse caminho, aproximando-se de uma colisão com um adversário com armas nucleares, e vão prosseguir nessa trajectória a menos que outros países, outros líderes americanos e a opinião pública bloqueiem esse caminho.

 

Há uma via melhor: as negociações directas, transparentes, objectivas e livres das ameaças militares norte-americanas, com o Irão e com a Coreia do Norte, sobre interesses mútuos no âmbito da segurança. O mesmo se aplica em relação aos conflitos na Síria, na Líbia, no Iémen, no conflito Israelo-Palestiniano e em outros sítios. E há um local para isso: o Conselho de Segurança das Nações Unidos, criado em 1945 para negociar soluções quando o mundo está entre a guerra e a paz.

Jeffrey D. Sachs, professor de Desenvolvimento Sustentável e de Políticas e Gestão de Saúde  na Universidade de Columbia, é director do Centro para o Desenvolvimento Sustentável e da rede de soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Laranjeiro


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