José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 17 de Novembro de 2016 às 19:09

Trump: ficção e realidade

O mais mal-amado candidato da História americana foi recebido em apoteose pelos mercados financeiros quando tornado Presidente eleito.

O índice Dow Jones brindou o programa económico de Donald Trump com novos máximos e o dólar encarnou a promessa de "Fazer a América Grande Outra Vez", elevando-se soberano e altivo face a todas as outras moedas.

 

Tão exuberante otimismo dos investidores advém do pragmatismo de quem não teme juntar na mesma aljava medidas liberais (cortes de impostos e desregulação) e estímulos de inspiração keynesiana (programa de construção de infraestruturas). Nada disto é original. O FMI, a OCDE, mas também a Reserva Federal dos EUA e o BCE há muito que apelam a um contributo acrescido da política orçamental para a retoma da economia mundial. Esses apelos não foram, contudo, acolhidos. Na Europa, devido à intransigência da Alemanha em recusar aplicar o receituário que no passado se mostrou infrutífero e gerador de níveis tóxicos de endividamento. Nos EUA, por acrimoniosas divergências entre democratas e republicanos, num contexto em que os primeiros tinham a Casa Branca e os segundos controlavam o Congresso. Porém, esta realidade mudou com as eleições de 8 de novembro. Com a Casa Branca e as duas câmaras do Congresso sob domínio republicano, a restrição política a um megapacote de estímulo desaparece. Os investidores exultam. Mas há um problema.

 

Trump não é o Partido Republicano. O estatuto de "outsider", que lhe permitiu desprezar as fronteiras ideológicas e, assim, conquistar votos na classe média, revelar-se-á um óbice nas negociações com o Congresso. Convém não esquecer que há muitos congressistas republicanos afetos ao Tea Party, que abomina despesa pública, para além de que o líder da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, é um dos principais inimigos políticos de Trump no partido do elefante. Dos democratas só é razoável esperar uma oposição tão acirrada como a dos republicanos durante a presidência Obama.

 

Trump feriu, mas não matou o "establishment", que qual animal ferido contra-atacará até aniquilar ou domesticar a ameaça vital. A isto soma-se a coincidência (ou a armadilha plantada pelo anterior Congresso a uma eventual vitória de Trump) de o teto de dívida federal vir a ser atingido no início de março próximo. Isto significa que o Presidente, assim que tomar posse a 20 de janeiro, vai ter como prioridade absoluta negociar com o Congresso a elevação do teto da dívida, sem a qual o estado federal não funciona regularmente. Com efeito, ao contrário do que a euforia dos mercados financeiros faz supor, é mais provável que os primeiros 100 dias de Trump sejam dedicados a fechar serviços federais do que a implementar o maior programa de estímulo desde o New Deal de Roosevelt. Ironia das ironias seria ver Trump aliar-se aos democratas para viabilizar o seu plano de infraestruturas em troca, pasme-se, da manutenção do Obamacare. Ficção? Nada disso, porque como disse Mark Twain, a ficção é obrigada a confinar-se ao possível. Tal restrição não se aplica a Trump.

 

Perante a dificuldade em executar o plano A, o novo inquilino da Casa Branca pode sempre tentar um plano B, que consistiria em antecipar, através de atos e omissões, a recessão que já espreita sobre a economia americana e rezar que ela só dure metade do mandato. Estratégia arriscada? Ronald Reagan começou o primeiro mandato com uma violenta crise económica (1981-82), mas a rápida recuperação em 1984 deu-lhe, em 1985, a maior maioria do colégio eleitoral dos tempos modernos.

 

Chief economist do Millenniumbcp

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