João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 15 de Novembro de 2016 às 20:50

Trump: imagem de marca

"Sanitários Trump" de Shenzhen é uma das centenas de empresas que exasperam o recém-eleito Presidente por pilhagem de marca desde que o magnata e estrela de televisão começou a investir no mercado chinês.

Há mais de uma década que Trump tem vindo a registar na China empresas da hotelaria ao mobiliário, passando pelos seguros, mas só raramente teve êxito nas demandas judiciais por abuso de direito de propriedade industrial.

 

Após a eleição, calhou-lhe, contudo, em sorte ter obtido provimento de um recurso de registo da marca "Trump" para actividades de construção, demolições, mineração e similares.

 

Dos 53 registos legais da marca "Trump" na China apenas 21 são detidos pelo empresário, segundo o The Wall Street Journal, e por aqui se poderá inferir que o futuro Presidente será sensível a abusos similares prevalecentes no país que acusa de cometer "um dos maiores roubos da História" ao sugar dinheiro e empregos dos Estados Unidos.

 

O estilo, tal como a marca, é o homem e, consequentemente um dilúvio de comentários alastrou na China sobre potenciais consequências dos abusos de "Trump".

 

Por lá, é claro para os decisores políticos que as expectativas em relação a Trump não devem ignorar  as desfeitas e os desvarios do candidato, que, a par de preconceitos, faro apurado, pulsões do mundo americano, lógicas de negócio e técnicas de compromisso, irão definir a sua Presidência.

 

As primeiras nomeações trazendo para dentro da tenda presidencial personalidades do neoconservadorismo republicano, como Reince Priebus, e representantes do radicalismo chauvinista e racista de direita, caso de Stephen Bannon, é sinal de que a Casa Branca vai ser um ninho de lacraus.

 

A tentativa de agregar tendências antagónicas, num quadro de carência de clientela política própria, para conseguir assegurar até Abril a confirmação dos cargos de maior importância na administração federal levará Trump, com toda a probabilidade, a fracassar na acção decisiva que se espera dos primeiros cem dias de um Presidente.

 

Na política interna será, por exemplo, relativamente fácil propagandear directivas para acelerar a inviável deportação de 11 milhões de emigrantes clandestinos.

 

A Trump bastará radicalizar a tendência iniciada com Clinton para ampliar a construção de muros fronteiriços que levou, por exemplo, desde o início da administração Obama à expulsão de 2,7 milhões de ilegais.

 

Por outro lado, nada de bom sobrará para 3 milhões de clandestinos sem registo criminal que o Presidente democrata tentara legalizar até decisão em contrário do Supremo Tribunal em Junho deste ano.   

 

O anúncio de lançamento de projectos para reabilitação das depauperadas infra-estruturas de transportes, a revisão ou repúdio de acordos comerciais serão, por sua vez, previsivelmente bem acolhidos numa fase inicial não apenas por trabalhadores de baixas qualificações, mas também por licenciados que viram os rendimentos cair 13% entre 2000 e 2014, e irão abrir um ciclo orçamental expansionista.

 

O Presidente eleito falhou, no entanto, de imediato num desígnio essencial porque a política externa vai condicionar as opções da Casa Branca.

 

As declarações sobre a condicionalidade e a reversibilidade de compromissos de defesa para com Estados aliados e as ameaças de retaliações comerciais definem irremediavelmente a próxima administração como aliado ou parceiro dúbio ou deveras carente de fiabilidade.

 

Afirmações contraditórias de Trump quanto às condições e objectivos de projecção de força, num contexto de retraimento militar acentuado desde o final da Guerra Fria e só interrompido por resposta malconcebida e pior executada aos atentados de 11 de Setembro, agravam a instabilidade.

 

A imagem da marca "Presidente Trump" é desde já a de um septuagenário  incoerente, obstinado, inconstante, demagogo e iludido na ideia de que seja possível presidir jogando uns contra e outros, procrastinando ou ameaçando, subestimando a reacção por antecipação, temor ou precipitação de aliados, adversários e inimigos.

 

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