Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 25 de janeiro de 2017 às 20:40

Trump power

O mundo está siderado com Donald Trump. Compreensivelmente, a generalidade das pessoas está ainda completamente atordoada com o que Trump significa e com o que se propõe fazer. Na prática, o novo Presidente dos EUA está a pôr o mundo a andar em sentido contrário.

É como se estivesse a conduzir em contramão de encontro a todos os outros condutores. Sabemos todos que a economia é um complexo conjunto de várias componentes que interagem entre si e que influenciam, naturalmente, a performance global. Basta o que Trump está a fazer na área comercial - uma das componentes fundamentais da actividade económica - para se perceber que as consequências no todo, mas também em cada uma das outras componentes, podem ser muito significativas. Trump pode censurar a regulação excessiva num sector, como o financeiro, mas quer regular, condicionar, proteger, descriminar, fechar noutros sectores da economia. Ao retirar o seu país do acordo do comércio do Pacífico, já concluído, e ao pôr completamente de lado a hipótese de conclusão do acordo Transatlântico com a União Europeia, Trump está, obviamente, a estancar a globalização, a liberalização, o desarmamento aduaneiro e a livre circulação. Sabemos que as negociações, nomeadamente com a UE, eram árduas e estavam longe do fim. Mas Trump disse que não queria mais negociações. Por vezes, quem o ouve pensa se ele julgará que está sozinho no mundo. Na prática, Trump está a dar sequência e a concretizar lógicas centrífugas já anteriormente manifestadas, nomeadamente no Brexit, mas também noutros movimentos secessionistas, como na Catalunha, ou na Escócia.

 

Nas alturas de crise demorada é inevitável que comecem a surgir movimentos desagregadores que ponham em causa projectos que antes eram mobilizadores. Esse fenómeno ainda não chegou aos EUA, mas nada é de excluir no mundo de hoje. Seria aliás curioso observar como os EUA reagiriam a um movimento separatista ou secessionista na Califórnia. Hoje parece impossível, mas dou este exemplo que parece absurdo, para sublinhar o que está a acontecer no mundo: tudo ou quase tudo está a ser posto em causa. Sem dúvida de que a realidade da união entre os estados americanos é mais antiga e que os EUA vivem em democracia. Mas até talvez por ser mais difícil lutar em ditaduras aqui há pouco mais de 30 anos, poucos jurariam pela queda do Império Soviético. Ora, Trump vem dizer que não gosta do mundo como ele é: ele não gosta da ONU, acha que a NATO está envelhecida, não gosta da comunicação social, questiona os serviços de informações, ele não quer pagar o desenvolvimento ou a paz noutros países, ele parece querer assumir, como ninguém nas últimas décadas, o isolacionismo.

 

Gostava aliás de saber em quantos gabinetes de estudos de Reservas Federais ou Bancos Centrais já se estará a estudar a consequência na economia em geral de tudo aquilo que Trump se propõe fazer.

 

Ninguém pode saber ainda até onde Trump quererá exercer o seu poder para desmantelar a actual ordem mundial.

 

Por enquanto, os analistas trabalham nos moldes clássicos. Mas as análises clássicas vão mostrar-se completamente inadequadas. Nada vai ser como até aqui. Alguns dizem que tinha de surgir algo assim porque o mundo também não estava, nem está, bem, nomeadamente na sua ordem económica. Pois, sem dúvida, mas quem o sabia queria reformas profundas, ninguém pedia uma revolução. E o que Trump traz - não é preciso esperar mais tempo para saber - é uma verdadeira revolução, por enquanto, sem armas. Saber as consequências dessa revolução está dependente da certeza sobre o tempo em que ele estará nestas funções. Pode fazer dois mandatos, mas estou convencido de que chega um mandato para o mundo mudar mesmo de rota.

Advogado

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comentários mais recentes
JC Há 4 semanas

Afinal parece que o mundo é que anda em contramão, pode ser que ele o ponha a andar no sentido certo, que não é certamente dos "bem pensantes europeus !!!

objectivo Há 4 semanas

Realmente Trump vai em sentido contrário á velha Europa dos interesses estabelecidos em que a nata da politica e da comunicação foi criando uma narrativa de eles é que iam no caminho certo. Acontece que o povo que trabalha e produz riqueza começa a abrir os olhos e começa a dizer basta. Quem trabalha e paga impostos está subjugado por quem vive da subsidio dependência quer sejam politicos quer sejam os que não querem trabalhar. Um americano em média paga metade dos impostos que se paga na Europa e por isso eles conseguem ser competitivos.

RFL Há 4 semanas

E um dos comentarios mais "neutros" que tenho lido na press Tuga...nao insulta é apenas incredulo...a globalizacao validada por Bush foi alvo das maiores criticas (so por ser do Bush) e esta a ser uma catastrofe social enorme...e nao se faz nada ? Viva a revolucao TRUMP...apos a revolucao a bonanca

Farto Há 4 semanas

Não sei se vai ser bom ou mau! O tempo dirá, como disse de politicos em campanha, dizem algo e depois, só fazem impostos! Para já, gostava que em Portugal fizessem, irem para "tachos" a custo zero, como está a acontecer nos US!