Jeffrey N. Wasserstrom
Jeffrey N. Wasserstrom 17 de janeiro de 2017 às 20:00

Trump visto por olhos chineses

Assim como uma China fraca não conseguiu contar com a protecção de Wilson, uma China forte não poderá contar com Trump para sair do seu caminho - pelo menos sem umas cotoveladas.

Quando Donald Trump venceu as eleições presidenciais dos Estados Unidos em Novembro, tinha muitos fãs chineses. Mas a popularidade de Trump afundou desde então, devido às suas declarações - muitas vezes através do Twitter - sobre questões controversas, como Taiwan e o Mar do Sul da China. Esta não é a primeira vez que a visão da China sobre um líder dos EUA se deteriorou rapidamente.

 

A mudança abrupta no sentimento chinês em relação a Trump é uma reminiscência do que aconteceu com o presidente dos EUA, Woodrow Wilson, após a sua reeleição há um século. Na época, muitos intelectuais chineses, incluindo o jovem Mao Zedong, admiravam Wilson, cientista político e ex-presidente da Universidade de Princeton. Mas, em 1919, Wilson apoiou o Tratado de Versalhes, que transferiu o controlo de antigos territórios alemães na província de Shandong para o Japão, em vez de os devolver à China. Wilson perdeu rapidamente o seu brilho na China.

 

A mudança foi semelhante - mas as razões são muito diferentes. Há um século, a China foi levada a apoiar Wilson, e depois a odiá-lo, pela sua própria fraqueza. Hoje, é a força da China que está a influenciar a sua visão do presidente dos EUA.

 

Em 1916, ano em que Wilson foi eleito para o seu segundo mandato, a China estava em péssima forma. Ainda que a república estabelecida em 1912 fosse uma entidade única, estava, na verdade, altamente fragmentada. Os militares controlavam diferentes regiões, enquanto as potências estrangeiras, através de subornos e intimidação, ocuparam grandes áreas do território da China. Para os intelectuais chineses, Wilson contrastava com os senhores da guerra.

 

Mas a atractividade de Wilson na China ia para além da imagem. Em 1918, a popularidade de Wilson cresceu - e não apenas na China - depois de um discurso ao Congresso exigindo uma "autodeterminação" nacional. Ignorando o apoio de Wilson às leis de Jim Crow nos EUA e à invasão do Haiti, os intelectuais dos países devastados pelo imperialismo, do Egipto à Coreia, levaram a sua declaração muito a sério, e começaram a vê-lo como um salvador e defensor dos oprimidos.

 

Os patriotas chineses, em particular, esperavam que, sob a liderança de Wilson, os EUA pudessem aprofundar o seu envolvimento na Ásia de forma a ajudar a proteger a China das predações do Japão Imperial. Para eles, o apoio de Wilson ao Tratado de Versalhes constituiu uma profunda traição.

 

A China de hoje é inimaginavelmente diferente da China de 1916. Ultrapassou até mesmo países avançados na hierarquia económica global. É unificada sob uma liderança forte e focalizada. E é muito grande, incluindo quase todos os territórios que fizeram parte do Império Qing no seu auge. Uma rara excepção é Taiwan, mas a ficção diplomática de "uma China" sustenta a fantasia de que algum dia, de alguma forma, a ilha democrática e o continente autoritário serão reintegrados.

 

Em suma, a China não precisa mais da protecção dos EUA. Em vez disso, quer um presidente dos EUA que esteja ocupado sobretudo com questões domésticas, e que não esteja muito preocupado em restringir a ascensão da China, como Barack Obama. Dessa forma, a China poderia começar a trabalhar na reorganização das relações de poder na Ásia para o seu próprio benefício, sem ter de se preocupar com a interferência americana.

 

Antes das eleições, Trump já era conhecido por fazer acusações violentas contra a China, normalmente relacionadas com questões económicas, como o comércio. Mas a sua aparente falta de interesse pela política externa era muito atractiva para os líderes chineses. Parecia muito mais provável que Trump deixasse a China em paz do que a sua opositora, a antiga secretária de Estado Hillary Clinton. A sua sugestão de que estaria muito menos comprometido do que os seus antecessores em apoiar os aliados tradicionais dos EUA na Ásia, como a Coreia do Sul e o Japão, foi música para os ouvidos dos nacionalistas chineses, assim como o facto de ter questionado os compromissos americanos com a NATO foi música para o presidente russo Vladimir Putin.

 

Tal como Wilson, Trump também ganhou alguns fãs simplesmente devido à sua personalidade, que é atípica para um político. Claro, Trump não é um rato de biblioteca. Mas muitas pessoas gostaram do facto de parecer que ele dizia (ou escrevia no Twitter) tudo o que sentia, apresentando uma "conversa directa" que contrastava fortemente com a postura de políticos mais polidos, incluindo o presidente Xi Jinping, que tem atenção a cada palavra.

 

Um desejo semelhante por "autenticidade" alimentou - embora de forma muito diferente - a popularidade de outro oficial americano, Gary Locke, que se tornou embaixador dos EUA na China em 2011. Fotografias de Locke a transportar a sua própria mala e a comprar café no Starbucks – actos simples para os quais os altos funcionários chineses teriam subordinados - estimularam uma onda de posts na internet celebrando-o como um funcionário público virtuoso. Os seus fãs afirmaram que os Estados Unidos deviam ser muito diferentes da China, onde funcionários corruptos e os seus filhos mimados se entregam a luxuosos estilos de vida reminiscentes das famílias imperiais dos tempos dinásticos.

 

É difícil imaginar esse contraste particular entre os EUA e a China a ganhar peso agora, já que continuam a surgir fotografias do magnífico apartamento de Trump em Manhattan e das festas de Mar-a-Lago. Ainda que o estilo de comunicação de Trump continue impressionante, particularmente em comparação com o de Xi, torna-se muito menos atractivo quando se é alvo dos seus comentários contundentes sobre temas delicados. Assim como uma China fraca não conseguiu contar com a protecção de Wilson, uma China forte não poderá contar com Trump para sair do seu caminho - pelo menos sem umas cotoveladas. 

Jeffrey N. Wasserstrom, professor de História na UC Irvine, é o editor deThe Oxford Illustrated History of Modern China e o autor de Eight Juxtapositions: China Through Imperfect Analogies from Mark Twain to Manchukuo.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar