João Silva Lopes
João Silva Lopes 16 de Novembro de 2016 às 19:35

TRUMPézios 

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas, vista do alto de um trapézio que nos permitisse olhar para o lado de lá do Atlântico, pode ser algo de assustador.

Principalmente, no que concerne a três medidas que foram anunciadas durante as eleições: a reversão do "Obamacare", a desvalorização das alterações climáticas e a política de imigração.

 

O "Obamacare" deu os primeiros passos para resolver, apenas e tão-só, o maior problema social dos EUA: o acesso dos mais necessitados aos cuidados de saúde. Esta reforma constituiu a maior reforma da saúde deste a II Guerra Mundial e, no caso de Trump, a reverter na totalidade constituirá um retrocesso social.

 

Quanto às alterações climáticas, os EUA são os maiores emissores de gases com efeito de estufa depois da China e o incumprimento do Acordo de Paris acarretará custos políticos para os EUA e constituirá um retrocesso civilizacional.

 

Uma política agressiva contra os imigrantes não se compagina com a História norte-americana feita de imigrantes e de diferentes culturas. A sua aplicação cega constituirá um retrocesso humano.

 

A esperança reside, no entanto, no facto de Trump não governar sozinho. Terá a Câmara dos Representantes e o Senado onde lidará com diversas sensibilidades do Partido Republicano e um Executivo em que terá de contar com elementos moderados.

 

Entre estes, a confirmar-se a sua nomeação, emerge Rudolph Giuliani, mayor de Nova Iorque entre 1994 e 2002. Antes dele, as ruas de Nova Iorque tinham dois lados, um seguro e outro em que não se podia circular. Este descendente de imigrantes italianos conseguiu tornar Nova Iorque a mais segura das cidades norte-americanas, derrubando os muros que separavam os bairros de Nova Iorque, permitindo que afro-americanos, Wasps, latinos, chineses e descendentes de italianos constituíssem uma comunidade em que se poderia viver com a família no Bronx, em Queens, Brooklyn ou em Manhattan.

 

Há também medidas anunciadas na campanha norte-americana que são positivas como a redução do imposto sobre o rendimento das empresas de 35% para 15%, um verdadeiro "choque fiscal" que deveria inspirar a política fiscal do nosso país.

 

Quando o ministro da Economia português refere que a descida do IRC não é relevante, dando o exemplo de uma empresa do Norte que não beneficiaria dessa descida uma vez que paga os impostos noutros países, das duas, uma: ou ignora que, se quisesse, esta empresa estruturava-se para pagar o IRC em Portugal (caso este fosse atractivo), ou prefere ignorar as virtualidades de um regime fiscal competitivo para o crescimento e desenvolvimento económico por condicionamento dos partidos de esquerda que apoiam o Governo.

 

Ao mesmo tempo que o presidente da Comissão Europeia dá, pretensiosamente, largas à superioridade intelectual europeia ao referir que os americanos, "não têm qualquer interesse pela Europa" e que os próximos dois anos serão tempo perdido "até que Trump dê a volta ao mundo que não conhece", por cá, entre o caos provocado pelas obras, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa entretém-se a espalhar cartazes "anti-Trump", proclamando uma cidade livre que "constrói pontes e não muros".

 

Do alto de um trapézio, mas do lado de lá do Atlântico, pode ver-se algo de assustador: um continente que não sabe como lidar com o muro construído pelo Reino Unido, um país que ergue muros ao investimento e uma cidade que cria muros à mobilidade urbana.

No fundo, é tudo uma questão de "muros".

 

Advogado

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