João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 08 de agosto de 2017 às 19:40

Tua voz mentirosa e cara enganadora 

Os velocirraptores foram decapitados à entrada do Museu Nacional do Dinossauro e a polícia de Camberra procura desde o fim-de-semana os responsáveis, enquanto em Nairobi reina a confusão sobre o assalto às instalações da NASA, e temos aqui factos incontestáveis.

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O furto de três cabeças de dinossauro em plástico com reforço de fibra de vidro passa por evento trivial na Austrália, sem consequência de maior e verdadeiro, por sinal, mas já a notícia da vandalização da sede da NASA, na noite de sexta-feira, veio a revelar-se falsa e a ameaçar violência.

 

Líderes da coligação National Super Alliance (NASA) que apoiam Raila Odinga na eleição contra o Presidente Uhuru Kenyatta denunciaram o ataque, depois retractaram-se e sobraram boatos e rumores num crescendo de virulência e inanidade até à abertura das urnas na terça-feira no Quénia.

 

Notícias falsas, deturpadas e tendenciosas nada têm de novo, mas a sua disseminação ampla e instantânea gerou possibilidades de manipulação e desnorte que ainda mal começaram a fazer mossa.

 

Nos universos da guerra e embuste digitais, o arsenal capcioso está prestes a atingir um nível de letalidade sem paralelo no mundo de confronto e criminalidade convencionais.

 

A gravação e a duplicação de voz, gerando novas frases, débitos de som, amplitudes, timbres e entoações a partir de amostras reduzidas já tem aplicações comerciais e basta consultar, para dissipar dúvidas, uma das principais empresas do ramo: a israelita https://www.vivotext.com/. Trabalhando a partir de amostras reduzidas de voz aplicações de software desenvolvidos por empresas como a chinesa BAIDU (http://research.baidu.com/), o Institut des Algorithmes d' Aprentissage de Montréal (https://mila.umontreal.ca/) ou o projecto (http://www.speech.cs.cmu.ed/) da Carnegie Mellon University, Pittsburgh, conseguem, por sua vez, em cerca de metade dos casos iludir a correcta identificação por seres humanos, obrigando ao recurso a análises electrónicas de frequências para detectar falsificação. 

 

Marcas digitais para autenticar vozes e sons podem obviar a tentativas de intrusão em sistemas de segurança de autenticação sonora, mas também nesta área as garantias tradicionais de veracidade estão postas em causa.

 

Para criar imagens em movimento a partir de amostras reais, gerando novos gestos e vocalizações, testes realizados por equipas da Google (https://research.google.com/teams/brain/) levam a admitir, por seu turno, a possibilidade de em menos de uma década surgir tecnologia capaz de produzir falsificações credíveis.   

   

Estes avanços criam uma situação em que além de passar pelo crivo as afirmações produzidas (sua coerência e consistência com padrões atestados, além da não contradição com factos apurados) é, ainda, necessário verificar sistematicamente a identidade real de quem se vê e ouve enunciar seja o que for. 

 

Valha o exemplo simples da fotografia oficial de Emmanuel Macron tirada a 24 de Junho, e trabalhada em Photoshop entre as 13:00 horas de 26 e as 11:52 horas de dia 29 poucos minutos antes de ser colocada em linha no site oficial do Presidente. Os serviços do Eliseu ao esquecerem-se de obliterar os metadados facultaram, inadvertidamente, os elementos para identificar o local, a hora da fotografia e as alterações efectuadas.     

 

A impossibilidade de identificar rapidamente uma falsificação torna difícil gerar em tempo último contra-informação credível e que tenha em conta igualmente o efeito de afunilamento ideológico que leva determinados grupos a aceitarem apenas informações que não contradigam ou reforcem seus preconceitos e valores. 

No âmbito de defesa e segurança, ao avolumarem-se as dificuldades em identificar autores de falsificações capazes de provocarem danos gravosos a pessoas, bens, infra-estruturas, mais difícil se torna a retaliação e a capacidade de dissuasão.

 

A velha ordem da informação e a sua manipulação são um dinossauro decapitado à nossa frente em directo e com estrondo.       

 

Jornalista

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