Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 30 de outubro de 2017 às 20:00

Tudo para todos

E se o sacrifício dos que perdem não conduzir à estratégia adequada, o benefício dos que ganham não servirá para muito, porque acabarão todos a perder tudo.

A FRASE...

 

"Nenhuma das medidas adoptadas para reposição de rendimentos dos portugueses, ou aumento do investimento, ou redução da carga fiscal, será sacrificada."

 

António Costa, Assembleia da República, 24 de Outubro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

A economia é uma ciência triste, porque nunca encontra recursos suficientes para satisfazer as necessidades de todos. Quando escolhe, há uns que ganham e outros que perdem, não é possível oferecer tudo a todos. O sacrifício dos que perdem só pode ser justificado com o que se irá obter no futuro, adoptando a estratégia adequada que esse sacrifício torna possível. E se o sacrifício dos que perdem não conduzir à estratégia adequada, o benefício dos que ganham não servirá para muito, porque acabarão todos a perder tudo.

 

As finanças públicas, o ramo da economia que regista nos orçamentos as escolhas políticas que decidem a afectação dos recursos (se não houver cativações), é uma ciência mais do que triste, é trágica. Trabalha com o dinheiro dos outros, com os recursos que extrai, pela lei fiscal, aos que na economia produzem valor, para que sejam aplicados com o objectivo de acrescentar valor pelo crescimento económico que vai promover. Se em lugar do crescimento houver endividamento, em lugar da competitividade houver distributivismo, aqueles a quem é extraído uma parte do valor que criaram e do rendimento que receberam sustentam uma estratégia política que não é adequada nem congruente, ficam condenados à eterna repetição do sacrifício para o serviço da dívida - até não restar nada para distribuir e a dívida não puder ser paga. Nada terá justificação nas finanças públicas se não promover o crescimento e emprego.

 

A política não se resume à economia, menos ainda às finanças, mas fragmenta-se e dissolve-se sem elas. A política tem um lado solar, luminoso, de promessas em campanhas alegres e de negociações de alianças para configurar as plataformas do poder, mas também tem um lado lunar, sombrio, de formação de alianças incongruentes, atrás das quais se escondem os que beneficiam com as decisões políticas inadequadas, que prometem o que sabem que não vão cumprir. Quando se promete tudo a todos, ganham os que recebem primeiro, perdem todos os outros que acreditaram no que é luminoso, mas encobre o que é sombrio.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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