Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 02 de Janeiro de 2017 às 11:00

Um ano condicionado pelo populismo

2017 pode não ser o ano do populismo, mas será condicionado por ele: ganhando ou perdendo eleições, governando ou não os seus países, os populistas estão a condicionar as nossas democracias, moldando o discurso e as armas com que pretendemos vencê-los.

De facto, o populismo, à direita e à esquerda, aqui e no estrangeiro, assumindo-se, por oposição ao sistema e aos partidos, como representante fiel do povo, mandatário preferencial da população ou escudo defensor dos fracos, tem-nos infligido algumas derrotas que convinha evitar em 2017.

Primeira derrota. O termo populista escapou das suas fronteiras, passando a rotular toda a proposta que nos desagrada, que nos surpreende, misturando tudo. E quando tudo é populismo, vai-se a desclassificação, o temor. Deixa de ser problema, passa a ser a norma. Vivemos isso, é só ver quantos hoje se reclamam populistas, como se fosse um ativo.

Segunda derrota. Essa confusão, que agora percebemos, começa a distrair-nos do essencial, apostados que estamos em encontrar culpados, seja a comunicação social ou o politicamente correto. É uma discussão relevante, mas própria de quem ganhou a guerra e não de quem está a perder batalhas. Enquanto o mundo político e mediático estiver entretido a ver de quem é a culpa, os populistas falam com as pessoas, indiferentes. 

Terceira derrota. O populismo alimenta-se de todas as falhas, que nunca deixarão de ser muitas, do nosso sistema. Vêm daí as propostas de refundação ou regeneração do regime, desde a democracia direta às profundas reformas constitucionais, numa ânsia de combater os populistas. Como se tem visto, os populistas agradecem. Aproveitam qualquer concessão, beneficiam sempre que se coloca o sistema em causa. É uma ilusão pensar que os populistas se calarão, abandonarão, no dia em que o sistema for bom.

Como combater o populismo sem cair no erro de o generalizar a tudo o que nos cria desconforto e sem cair na tentação, tão presente, de o combater com armas e discurso que ele próprio nos sugere? Adolfo Mesquita Nunes

Quarta derrota. Os populistas não são iguais entre si, defendem coisas distintas, muitas vezes antagónicas, mas, em comum, têm esse pressentimento de ligação direta ao povo e, em consequência, partilham métodos: a tática do inimigo comum, a predileção pela democracia direta, a apurada estratégia comunicacional, a capacidade de federar descontentamentos. Apontar as diferenças só serve para legitimar, para criar populistas menos maus, como se os valores que deles nos separam fossem móveis, pouco firmes afinal, logo pouco relevantes.

Destas derrotas foi feito 2016. E de 2016 herdamos este desafio: como combater o populismo sem cair no erro de o generalizar a tudo o que nos cria desconforto e sem cair na tentação, tão presente, de o combater com armas e discurso que ele próprio nos sugere?

Desde logo, pela positiva e pela afirmação. Não podemos continuar a defender-nos dos populistas pelo que de mau eles representam ou pelo medo que nos inspiram. Ou sabemos apresentar a nossa alternativa, o nosso modelo, a nossa liberdade, como a melhor escolha e o melhor caminho, pelas suas vantagens, pelo que oferece, ou deixamos essa liderança para os populistas, peritos em discursos mobilizadores. Precisamos de ter as populações connosco outra vez.

Pode parecer chavão, sê-lo-á talvez, mas continuamos à espera de alguém que consiga voltar a mobilizar-nos para a liberdade. Que saiba dizer-nos, com evidências, que existem, que vivemos hoje melhor do que nunca; que aqui, com este nosso modelo de sociedade, podemos, e conseguimos, aspirar a uma vida melhor; que este é o único modelo que nos permite viver como queremos, vestir o que queremos, consumir o que queremos, viajar para onde queremos, estudar o que queremos, ser o que queremos; que em mais lado nenhum, que em nenhum outro modelo, podemos seguir tão livremente o nosso próprio projeto de felicidade.

A liberdade, enquanto valor político primeiro, que funda a democracia ocidental, precisa de liderança ou empalidecerá nos braços destes novos líderes. E não há liderança sem discurso mobilizador, apaixonado. É isso que nos falta.
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comentários mais recentes
Juventino Bernardo Há 2 semanas

Com essas ventas de patrulha não chegas a lado nenhum.

Desanimado Há 2 semanas

Os governos do sistema por todo o mundo não descansaram enquanto não criaram as maiores desigualdades de que há memória na segunda metade do século XX, agora vêm falar de populismo. O populismo tem as costas muito largas!!

Maria da Paz Há 2 semanas

O populismo funciona ...

José Carlos Ferraz Alves Há 2 semanas

Sim, PP, mais populista não há!

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