António Amaro de Matos
António Amaro de Matos 10 de Janeiro de 2017 às 00:01

Um banco diferente

Nas atuais circunstâncias da nossa economia, um banco público só faz sentido se operar com objetivos que aos bancos privados não convêm.

Aparentemente, não se tem pensado em discutir que utilidade poderia ter a CGD para a economia. E não creio que essa preocupação tenha sido tomada em conta no plano já desenhado.

 

Nem uma palavra explicando o interesse que o banco público, por ser público, pode ter.

 

Acredito que não se pretende que o banco público seja sobretudo uma fonte de financiamento do Estado através dos lucros da atividade bancária, nem - como no passado - um instrumento de poder político encoberto para o Estado utilizando a capacidade financeira da CGD.

 

Excluo estas hipóteses. Fixo-me na economia. Na verdade, a vantagem para a economia que se pode tirar da existência de um banco público é ser diferente na sua política de aplicações, orientando-as também para áreas não cobertas satisfatoriamente pelos bancos privados por serem mais difíceis e menos rentáveis. Seguindo, naturalmente, orientações que o Governo (ministro da Economia?) lhe dê. Tutela dupla, portanto.

 

Os bancos privados, juntamente com a CGD, já cobrem bastante bem as grandes empresas e os setores tradicionais. O banco público terá adicionalmente de se inserir numa outra realidade empresarial, muito dispersa, e criar a capacidade de avaliar as perspetivas e a gestão de milhares de projetos singulares, atividade menos rentável e de maior risco.

 

Assim, nas atuais circunstâncias da nossa economia, um banco público só faz sentido se operar com objetivos que aos bancos privados não convêm.

 

Decorrem daqui diferenças substanciais entre o que se pode considerar ser boa gestão de um banco privado e a boa gestão de um banco público. A primeira visa a obtenção de lucros e é medida pela dimensão dos que obtiver. Quanto mais, melhor.

 

Para a segunda, a obtenção de lucros é uma constrição (tem de os obter pelo menos no montante necessário para se manter dentro dos rácios fixados), mas, na verdade, o bom desempenho é a penetração obtida no seu mercado específico.

 

Tem-se falado de prémios de gestão. Prémios de gestão avultados são uma infeliz marca do sistema financeiro. Não julgo apropriada, e até prejudicial, a existência para a CGD de prémios da natureza dos da banca privada, em função dos lucros.

 

Os prémios estão na origem dos males do sistema financeiro, colocando na mira dos gestores bancários a perspetiva de ganhos pessoais elevadíssimos na dependência dos lucros das instituições. Excitando-lhes a cobiça, promoveram-se verdadeiras corridas aos lucros a qualquer preço, com os tristes resultados que conduziram à situação atual, ilustrando o potencial de destruição motivado pela ganância desenfreada.

 

Mas o curioso é que essa prática, a dos grandes prémios de gestão, se tem mantido. Com um alegado racional: o de recompensar, partilhando, com os gestores de topo, os lucros. Sem medir a pressão posta nos alvos desses prémios em termos de desempenho nem os riscos que daí podem fazer correr às instituições.

 

Já sem falar na injustiça de não compensar igualmente os restantes colaboradores que, a todos os níveis, foram sujeitos ao stress das organizações neste tipo de corridas aos lucros.

 

A um banco público com objetivos quantificados pede-se o cumprimento desses objetivos e não "performance" em termos de resultados. Não colhe, portanto, a mesma justificação (partilhar lucros) para premiar. Devemo-la deixar aos bancos privados enquanto imprudentemente consentido.

 

E cumprir objetivos é o que se espera de quem é nomeado com esse propósito. Cumprir não é nada de excecional, é a norma. Justifica uma remuneração adequada (enquanto cumprir). Não um prémio.

 

A gestão de um banco público enquadrada no que julgo dever ser a CGD como banco é, decerto, entusiasmante e trabalhosa, mas relativamente pacata, e não carece de lances espetaculares nem da agressividade que os concorrentes exercitam. O seu êxito depende sobretudo do talento para criar uma organização competente, que, a nível nacional, apoie as empresas e fazê-la funcionar. Não carece de génios da finança, que, aliás, não julgo termos, e se algum aparecesse seria melhor não o deixarem aproximar da CGD…

 

Aparentemente, não se tem pensado em discutir que utilidade poderia ter a CGD para a economia. E não creio que essa preocupação tenha sido tomada em conta no plano já desenhado. Nem a UE deixaria que a CGD fosse um banco diferente, impossível de privatizar quando for necessário privatizá-la.

 

Economista

 

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