António Moita
António Moita 03 de dezembro de 2017 às 18:34

Um fatinho e um par de sapatos 

Muito foi escrito sobre Belmiro de Azevedo nestes últimos dias e na esmagadora maioria dos casos para realçar as suas qualidades de gestor, de empreendedor, de visionário e de líder. Nada mais justo. 

Importa agora, cada um à sua maneira, olhar para o seu percurso, para as suas lutas, para as suas intervenções públicas e retirar daí algo que dificilmente se consiga voltar a encontrar. Sim, porque homens nascidos na indústria com a fibra de Belmiro de Azevedo não existem em abundância.

 

Conheci-o pessoalmente numa situação absolutamente fortuita em Durban, África do Sul. Conversámos de forma descontraída sobre o que cada um estava ali a fazer e, mais tarde, fez-me chegar um cartão de visita com uma mensagem muito simpática. Nunca mais o encontrei. 

 

Num país em que o sucesso anda quase sempre de mão dada com o apoio do Estado e dos nossos impostos, cumpre enaltecer quem sempre afirmou a sua independência face aos poderes instituídos. Dizia o que pensava mesmo que soubesse que estava a ser inconveniente ou politicamente incorreto. 

 

Sabemos que trabalhava muito e era exigente consigo e com os outros. Assumia o risco e acreditava sempre na vitória. Encarava a gestão como o resultado da conjugação do bom senso, da formação e da boa informação. Apostava na criatividade e na inovação e tinha o vício de fazer coisas, especialmente as que ainda não tinham sido feitas.

 

Fez da Sonae uma escola prática de gestão na qual nasceram muitos novos empreendedores e excelentes quadros hoje noutras empresas. Acreditava nos seus colaboradores e estimulava-os constantemente, não exatamente por bondade, mas porque sabia ser esta a forma de deles tirar o maior rendimento possível. 

 

Construiu um vasto e dinâmico grupo empresarial e fez fortuna, mas nunca a exibiu. Ao invés, foi um exemplo de contenção e usava o dinheiro para investir e criar emprego.  

 

Para os que cá ficam, que admiram a sua obra e aprenderam com o seu exemplo, fica a tristeza de perceber que na sua partida leva consigo muito mais do que "um fatinho e um par de sapatos".

 

Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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