Fernando  Sobral
Fernando Sobral 14 de Novembro de 2016 às 20:05

Um homem forte?

O populista não abusa das palavras: torna-se dono delas. Ilumina o caminho, afastando os empecilhos.

Aristóteles, que conhecia o poder de fogo dos demagogos, percebeu para onde caminhavam os que se intitulam pastores da verdade geral: "Nos tempos antigos, quando o demagogo era também general, a democracia transformava-se em tirania." A eleição de Donald Trump faz, aos olhos de muitos, prever o apocalipse. O falhado jantar dos MNE da União Europeia no domingo mostrou o pânico da Europa que tem de se defrontar com uma estratégia comum: Boris Johnson não apareceu; o ministro húngaro, apoiante de Trump, evitou ir. A Europa é tudo menos unida. Matteo Renzi já o demonstrou: na sua última conferência de imprensa só tinha bandeiras de Itália e nenhuma da UE. A forma como a Alemanha se portou com a eleição de António Guterres mostrou como é a solidariedade europeia. A destruição do contrato social através da austeridade radical, que só é contrabalançada pela acção do BCE (que não evita o esboroar da Europa, como sublinhava, e bem, Jorge Sampaio no Público), anima ainda mais o radicalismo.

 

Ou seja, no meio do Brexit e de Trump, desenha-se algo mais: uma cultura onde a democracia é a próxima vítima. A entrevista, há dias, do filósofo Zygmunt Bauman ao L'Espresso é perturbadora. Ele diz que a vitória de Trump é sobretudo o resultado da confluência da condenação do sistema político através de quem vem de fora dele e da vontade da população em querer um "homem forte". Mais: Bauman alerta para a possibilidade de estarmos a assistir à trituração dos princípios da democracia, que julgávamos intocáveis. Ou seja, a possibilidade de os cidadãos estarem a olhar para a divisão de poderes (legislativo, executivo e judiciário) como um empecilho para as soluções rápidas que desejam para resolver os seus problemas. Trump é o "homem forte", que traz a comunicação directa entre o topo e a base. Sem intermediários. Estamos a assistir a uma mutação cultural e política. A Europa deveria pensar nisso. Antes que seja tarde.

 

Grande repórter

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5640533 Há 3 semanas

Europa não pensa. Toda a gente olha para o umbigo.