José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 24 de julho de 2017 às 21:06

Um mercado que não se cansa

O que sabemos é que quanto maior for a subida artificial, maior é a dimensão provável do próximo "crash". Posto de outra forma, se o mercado não respira, morre de exaustão.

A FRASE...

 

"Os mercados acionistas andam para cima e para baixo. É um facto da vida. Excepto em 2017."

 

The Wall Street Journal, 19 de julho 2017

 

A ANÁLISE...

 

Segundo o Wall Street Journal, é preciso recuar mais de três décadas para encontrar um ano em que os principais índices acionistas norte-americanos não registaram pelo menos uma retração igual ou superior a 5%. Contudo, em 2017, o mais que o mais representativo dos índices (S&P 500) recuou foi 2,8%. Duas questões surgem a propósito deste facto: porque é que ele ocorre e qual a sua relevância?

 

A evolução quase linear dos índices acionistas só acontece porque a generalidade dos investidores acredita não existirem riscos significativos de desvalorização. Esta crença tem na essência uma política monetária da Reserva Federal que se tornou muito sensível a qualquer queda expressiva dos mercados. Este horror dos banqueiros centrais às correções acionistas decorre da teoria de que as valorizações acionistas são duplamente virtuosas: ao enriquecer as famílias estimulam o consumo, ao reduzir o custo de capital das empresas estimulam o investimento. Sabendo desta hipersensibilidade da política monetária, os investidores sentem-se seguros de que qualquer retração dos mercados será contrariada por medidas de estímulo monetário. Não há que enganar, certo?

 

Infelizmente, não é bem assim.

 

A volatilidade é crucial para o funcionamento dos mercados financeiros por permitir expurgar os pequenos excessos que os investidores coletivamente vão cometendo. Um mercado com tão firme convicção na sua eterna valorização sujeita-se a uma espetacular correção. Isto porque, quando a Reserva Federal for obrigada a normalizar as taxas de juro ou quando os investidores acharem que as valorizações atingiram níveis estratosféricos ou quando vier a próxima recessão, todos os ganhos impulsionados pelo artifício da política monetária se reverterão. Se isso vai acontecer e quando, é impossível de prever. O que sabemos é que quanto maior for a subida artificial, maior é a dimensão provável do próximo "crash". Posto de outra forma, se o mercado não respira, morre de exaustão. 

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Anónimo Há 4 semanas

A verdade é que a bolsa não cria dinheiro. E já lá vai o tempo em que reflectia o valor das empresas. Simplesmente é um casino, leva o dinheiro de uns para os outros. Por isso: "A volatilidade é crucial para o funcionamento dos mercados financeiros".