Simon Johnson
Simon Johnson 05 de julho de 2017 às 14:00

Um milagre económico europeu?

Acima de tudo, a Zona Euro - ou talvez a UE - deve encontrar formas de garantir que todos crescem e beneficiam do crescimento. Se será bem-sucedida ou não, ainda não sabemos.

Há alguns anos, a Zona Euro - cerca de um sexto da economia mundial - parecia estar em sérios problemas. A partir de 2010, uma crise inesperada da dívida soberana contribuiu para - e foi agravada por - graves deficiências nos grandes bancos. A austeridade orçamental na Grécia e outros países relativamente fracos ajudou a impulsionar uma recessão económica global. Na ausência de um apoio mútuo generoso, houve uma aura de desespero quando, em Março de 2015, o Banco Central Europeu anunciou um ambicioso programa de compra de dívida pública.

 

Pouco mais de dois anos depois, a situação parece muito mais positiva. As últimas previsões do Fundo Monetário Internacional antecipam um crescimento de 1,7% para a Zona Euro em 2017 e de 1,6% em 2018 - uma melhoria notável desde há alguns anos, quando a região lutava para crescer 1%.

 

As recentes preocupações em relação à solvência de alguns bancos mais pequenos em Itália e Espanha foram resolvidas sem provocar nenhuma disrupção significativa. E, numa conferência recente do BCE em que participei, houve até uma discussão sobre quando o BCE poderá começar a reduzir as suas intervenções e talvez a aumentar os juros. (Todas as sessões foram gravadas e transmitidas em tempo real).

 

O quadro macroeconómico imediato permanece, contudo, um tanto obscuro. Na manhã de 27 de Junho, os mercados financeiros pensaram que o presidente do BCE, Mario Draghi, havia falado de forma mais positiva sobre o crescimento do que no passado recente e o euro subiu significativamente. Na manhã seguinte, citaram-se altos funcionários do BCE a dizer que as  observações de Draghi foram sobrestimadas - e o euro caiu.

 

A verdadeira questão é o que virá depois, e este foi o tema da conferência: o que devemos esperar em termos do potencial de crescimento a médio prazo da Europa? Em particular, enquanto os juros permanecerem baixos, o actual nível de dívida pública em países como Itália continua a ser gerível. Mas à medida que os juros aumentem, haverá um crescimento suficiente para sustentar a expectativa de que os níveis de dívida pública são sustentáveis?

 

As conquistas pró-crescimento dos últimos anos são reais. As políticas de juros baixos (de facto, negativos) do BCE ajudaram a manter o crédito em geral e a garantir o financiamento contínuo dos défices governamentais em particular. Isso colocou pressão sobre a política orçamental - e houve menos austeridade do que parecia anteriormente provável. Os bancos ficaram, gradualmente, com uma base mais forte, com mais capital para absorver perdas. Há também algumas evidências de que a concorrência nos mercados de produtos aumentou, talvez devido a uma regulação mais relaxada.

 

Também há más notícias, embora nem todas sejam específicas da Zona Euro. Nos países industrializados, houve um abrandamento no crescimento da produtividade - e, portanto, no crescimento económico geral - que agora parece ter começado em torno do ano 2000. A explicação precisa continua a ser difícil, mas a visão predominante é que, enquanto o advento das novas tecnologias da informação teve algum impacto positivo sobre a produtividade na década de 1990, os ganhos não demonstraram ser suficientemente duradouros ou generalizados.

Além disso, o padrão preciso das mudanças tecnológicas tem pressionado a classe média em todo o mundo - reduzindo a procura por trabalhadores que têm apenas o ensino secundário. Isso implica um crescimento fraco e um aumento da desigualdade, uma combinação que pode prejudicar ainda mais os níveis de educação e competências.

 

Ao mesmo tempo, as tendências demográficas europeias são um motivo de preocupação. O envelhecimento da população significa mais reformados – que recebem pensões públicas - em relação ao número de pessoas economicamente activas. A Europa foi o destino de um grande número de imigrantes vindos de países como a Síria, a Líbia e o Afeganistão; mas muitos dos recém-chegados têm poucas qualificações, e encontrar emprego tornou-se difícil.

 

Mais inovação poderia definitivamente ajudar. Mesmo os pessimistas reconhecem a incipiente onda de tecnologia nas ciências da vida, inteligência artificial e robótica em todo o mundo. Mas, à medida que a China continua a emergir como uma potência ao nível da investigação, há uma crescente pressão sobre a Europa para continuar.

 

Seria um erro descartar já a Europa. O seu capital humano é sólido, os cuidados de saúde estão disponíveis para mais pessoas do que nos EUA e estão a surgir empresas mais fortes através do processo de integração dos mercados nacionais.

 

Além disso, a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia parece ter concentrado as mentes dos líderes continentais. Ninguém quer repetir os erros da política de 2010-2014. O presidente francês, Emmanuel Macron, propõe uma autoridade central mais forte, incluindo um potencial ministro das Finanças. Continuamos sem saber se os alemães concordam mas vale lembrar que construir uma união orçamental nos EUA demorou muito tempo (e, em certa medida, continua a ser um projeto inacabado).

 

O maior motivo de preocupação poderá ser os desequilíbrios dentro da Zona Euro. A economia alemã é forte: crescimento de 1,5-1,6%, emprego quase pleno e um grande excedente de conta corrente. A economia espanhola melhorou muito, com um crescimento de 2,6%, mas o desemprego continua teimoso - e perturbadoramente alto -, em torno de 18%.

 

Itália continua a ser a grande questão, com o FMI a prever um crescimento do PIB de 0,8% este ano e no próximo. As empresas familiares do norte de Itália poderão revelar-se capazes de crescer nos mercados internacionais cada vez mais difíceis? A próxima onda de tecnologia ajudará ou irá prejudicá-las?

 

França continua a ser um enigma também. A grande transformação da política francesa de Macron levará a reformas que aumentam o crescimento? Se não for o caso, a Alemanha pode estar menos inclinada a juntar-se a Macron na questão da integração da Zona Euro.

 

Acima de tudo, a Zona Euro - ou talvez a UE - deve encontrar formas de garantir que todos crescem e beneficiam do crescimento. Se será bem-sucedida ou não, ainda não sabemos. O que é certo é que, num ambiente como o actual, onde o pior já passou, a tarefa tornou-se mais fácil.

 

Simon Johnson é professor na Sloan School of Management do MIT e co-autor do livro "White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You".

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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