Jim O'Neill
Jim O'Neill 19 de julho de 2017 às 14:00

Um momento Volvo para a Resistência Antimicrobiana

A decisão da Volvo confirma que as coisas estão a mudar na indústria automóvel, e envia uma mensagem positiva na luta contra as alterações climáticas.

Na semana passada, a Volvo fez um anúncio inspirador: não produzirá mais carros a gasolina ou gasóleo depois de 2019. Os executivos da Volvo podem estar a antecipar que os veículos tradicionais serão menos lucrativos no futuro. Mas seja qual for o motivo, a sua decisão teve grandes repercussões. Em 24 horas, o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou que França proibiria a venda de automóveis a gasolina ou a gasóleo até 2040.

 

A decisão da Volvo confirma que as coisas estão a mudar na indústria automóvel, e envia uma mensagem positiva na luta contra as alterações climáticas. Mas, mais importante ainda, demonstra que as pessoas e as organizações ainda são capazes de dar passos largos e arrojados para resolver grandes desafios.

 

Entre os muitos problemas globais de hoje, a luta contra a resistência antimicrobiana (RAM) precisa desesperadamente de um compromisso inovador deste género. Para os seus defensores, o aparecimento da RAM na agenda do G20 do ano passado, durante a reunião do grupo em Hangzhou, na China, representou uma grande vitória. Mas a declaração dos líderes do G20 sobre a RAM em 2016 não foi tão ousada como poderia ter sido, porque não quiseram elevar demasiado a fasquia. Sabiam que a Alemanha, campeã entusiasta na luta contra a RAM, presidiria este ano ao G20, e esperava-se que trouxesse propostas arrojadas para cima da mesa.

 

Na preparação da reunião do G20 deste ano, em Hamburgo, comecei a recear que a Alemanha não cumprisse estas expectativas. Mas, na verdade, a Alemanha prometeu de menos e concretizou mais. O extenso comunicado publicado no fim da cimeira de Hamburgo inclui uma declaração sobre a RAM que vai mais longe do que eu esperava.

 

Os líderes do G20 não só reafirmaram o seu anterior apoio aos esforços da Organização Mundial de Saúde, da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, e da Organização Mundial para a Saúde Animal na resposta à RAM, como também deram passos importantes em três áreas cruciais: utilização agrícola, diagnóstico, e o mercado para novos medicamentos úteis. Há oportunidades claras para compromissos inovadores em cada uma destas três áreas.

 

Na agricultura, os países do G20 prometeram reduzir o uso de antibióticos fora da medicina veterinária. Isso, por si só, é um grande passo em frente, dado que, em países grandes como os Estados Unidos, e possivelmente na China e na Índia, os antibióticos são hoje mais usados para a promoção do crescimento na agricultura do que no combate a infecções em humanos. A União Europeia já proibiu esta prática há uma década, mas a sua política não se disseminou globalmente devido aos interesses instalados nos principais países produtores de alimentos.

 

Ainda assim, países como os EUA e o Brasil poderiam ter hoje os seus próprios "momentos Volvo": os responsáveis políticos só precisam de dizer aos produtores alimentares o que será e o que não será permitido. E o sector privado também deve demonstrar liderança. Os produtores e retalhistas alimentares devem seguir as pegadas do produtor de bacon de Devon, que se comprometeu recentemente a usar apenas porcos livres de antibióticos. Será que o Walmart, a Asda, a Tesco e outras farão o mesmo agora?

Para vencer a guerra contra a RAM, temos de deixar de distribuir antibióticos como se fossem doces. Para isso, precisaremos de novas tecnologias e de outras medidas para alterar a forma como os antibióticos são prescritos e administrados. Por exemplo, na revisão sobre a RAM, que presidi, incitámos os países desenvolvidos a exigirem, até 2020, a realização de determinadas análises de diagnóstico antes de receitarem quaisquer antibióticos.

 

Ao promulgar uma política deste género, qualquer país desenvolvido pode estabelecer-se hoje como um líder global. O mesmo acontecerá com as empresas que se comprometam a fornecer a tecnologia de diagnóstico necessária a um preço acessível, ou com as empresas farmacêuticas que apoiem essas tecnologias como complemento de novos antibióticos gram-negativos, que deverão ser vendidos a um preço mais elevado para desencorajar o uso excessivo.

 

Que empresa farmacêutica será a Volvo ou a Tesla da sua indústria? Se uma empresa assumir a liderança no desenvolvimento de novos medicamentos para responder aos agentes patogénicos resistentes a antibióticos identificados pela OMS como prioritários, libertará as outras dos seus espartilhos convencionais, levando-as a deixar de pensar de forma tão insistente nos resultados trimestrais.

 

Na revisão sobre a RAM recomendámos 27 intervenções que poderiam resolver a crise da RAM durante uma geração. Nesta década, contudo, três fabricantes farmacêuticos dos EUA já gastaram mais dinheiro a recomprar acções do que o que precisariam para implementar essas intervenções. As empresas farmacêuticas tornaram-se gestoras de balanço em primeiro lugar, e só depois produtoras de medicamentos. Alguém precisa de dar a volta a este modelo.

 

A revisão também propôs recompensas para os que entrem no mercado, para encorajar a inovação. Se os grandes fabricantes farmacêuticos pretendessem fazer investimentos importantes na investigação sobre os antibióticos, poderiam melhorar largamente o ambiente actual para o desenvolvimento de novos medicamentos. Espera-se que o "Centro de Colaboração para I&D" proposto pelo G20 ajude neste esforço. Só quando a indústria unir esforços é que a RAM seguirá o exemplo dos carros a gasolina e gasóleo.

 

Jim O'Neill, ex-presidente da Goldman Sachs Asset Management, é professor honorário de Economia na Universidade de Manchester e antigo presidente da revisão sobre a Resistência Antimicrobiana do governo britânico.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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