Monica Araya
Monica Araya 03 de dezembro de 2017 às 14:00

Um mundo sem tubos de escape

Impulsionar os motores eléctricos e deixar para trás as relíquias movidas a gás vai continuar a ser uma batalha penosa. Mas as novas tecnologias, com baterias melhores e estações de carga mais rápidas, vão ajudar a acelerar a transição.

A movimentação eficiente de pessoas é fundamental para qualquer sociedade. Quando as redes de transporte funcionam bem, impulsionam o desenvolvimento económico e, literalmente, unem as pessoas. Mas, em muitas partes do mundo, a mobilidade é uma questão de vida ou de morte; é poluidora, insegura e caótica. A poluição e o congestionamento devido aos camiões, autocarros e carros são perigos diários para milhões de pessoas, especialmente nos países emergentes.

 

Felizmente, grandes mudanças estão a chegar à forma como os humanos se movem. Pela primeira vez desde meados do século XIX, quando o motor de combustão interna moderno foi inventado, a sua morte está à vista. Os construtores automóveis anunciaram planos para vários modelos eléctricos e os políticos em vários países europeus colocaram uma data de validade sobre os carros a gasolina e a diesel. Os líderes na Índia e na China aspiram a fazer o mesmo.

 

As empresas por todo o mundo estão a fazer previsões ambiciosas em que a mobilidade eléctrica é o futuro dos transportes. Mesmo aqueles que tenham muito a perder com o abandono dos combustíveis fósseis entendem que os veículos eléctricos são inevitáveis. Em Julho, Ben van Beurden, CEO da Shell, reconheceu que o seu próximo carro vai ser eléctrico.

 

Cada vez mais pessoas estão a chegar à mesma conclusão. E aqueles que têm defendido que os veículos eléctricos são uma das soluções para as mudanças climáticas estão optimistas dado que o momento crítico está a chegar. As vendas de carros eléctricos aumentou significativamente nos últimos anos; cerca de 750 mil foram registados em 2016 – quase metade na China.

 

Ainda assim, está na natureza humana resistir à mudança, e muitos potenciais compradores continuam a hesitar. É por isso que a abordar o preconceito do consumo tem de ser a principal prioridade dos próximos anos. Várias mudanças são necessárias para assegurar que o crescimento da utilização e das vendas dos veículos eléctricos continua.

 

Para começar, os consumidores têm de ultrapassar a crença de que a mobilidade com emissões zero é apenas para as pessoas ricas que vivem nos países desenvolvidos. Todos os anos, 6,5 milhões de pessoas morrem devido à poluição no ar e 92% da população mundial vive em locais onde não é seguro respirar. As emissões dos veículos são um grande contribuinte para o ar sujo em todos os locais. Investir na mobilidade eléctrica e em infra-estruturas – incluindo transportes públicos electrificados, estações de carga e programas de partilha de carros eléctricos – vão ajudar, não prejudicar, o desenvolvimento.

 

O apoio a tais investimentos exige que as pessoas rejeitem a promessa falsa de que os combustíveis fósseis são "limpos". Alguns membros da indústria insistem que os veículos eléctricos não são necessários para uma implementação em massa e que seria melhor construir motores a gasolina e a diesel mais eficientes. Esta é a história que ouvimos frequentemente de revendedores de automóveis na América Latina. Mas tais visões são tão imprecisas quanto egoístas.

 

Tive a felicidade de experimentar em primeira mão o que se sente com a mobilidade eléctrica e como é superior aos carros que são apenas a gasolina ou a diesel. Já percorri milhares de quilómetros, em viagens por vários países, só com veículos eléctricos. Quando um condutor experimenta uma tecnologia limpa, silenciosa e poderosa, é difícil devolver as chaves. Os governos e os grupos de consumidores em todos os locais têm de trabalhar em conjunto para que mais pessoas conduzam estes veículos inspiradores.

 

Finalmente, temos de abordar os desequilíbrios estruturais que persistem nas nossas políticas de transporte. Simplesmente, aqueles que sofrem mais com a mobilidade "suja" têm a voz política mais frágil. Por exemplo, dados relativos ao Reino Unido mostram que frequentemente são os mais pobres que vão a pé ou apanham os autocarros. Por conseguinte, desenvolver transportes públicos com emissões zero quase nunca é uma prioridade para os governantes. Para os influenciar, os defensores têm de apurar a defesa dos benefícios sociais e económicos da mobilidade com emissões zero, com os efeitos positivos para a saúde pública.

 

Mudar de rumo vai demorar tempo. Na Costa Rica, a minha organização está a trabalhar para encorajar os empresários e o governo a assinar o "pacto para a mobilidade eléctrica" de forma a encorajar também o investimento em infra-estruturas para veículos eléctricos. No início de 2018, vamos abrir o registro online e, até ao final do próximo ano, pretendemos ter 100 organizações públicas e privadas associadas. Está também a ser debatida na Costa Rica uma lei para dar incentivos fiscais aos transportes eléctricos.

 

Outros na América Latina estão a descobrir as suas próprias formas de promover a mobilidade eléctrica. Por exemplo, no Chile, o foco está na energia solar e na ligação entre a mineração e a produção de veículos eléctricos.

 

Mas só mudanças políticas não serão suficientes para colocar os automóveis eléctricos na via rápida. Para isso, os consumidores têm de adoptar a narrativa da mobilidade limpa. Na Costa Rica, orgulhamo-nos do facto de quase toda a nossa electricidade ser produzida por fontes renováveis, incluindo hidroelectrica, geotérmica e eólica. Isso dá-nos um incentivo para liderar a transição mundial dos veículos alimentados a gás para carros, autocarros e comboios eléctricos. Nós, costa-riquenhos esforçamo-nos por "un país sin muflas" – um país sem tubos de escape. Expandir esse objectivo mundialmente é o objectivo final.

 

Para ser clara, impulsionar os motores eléctricos e deixar para trás as relíquias movidas a gás vai continuar a ser uma batalha penosa. Mas as novas tecnologias, com baterias melhores e estações de carga mais rápidas, vão ajudar a acelerar a transição. Tal como o CEO da Shell, eu também acredito que a transição para a mobilidade eléctrica é inevitável. O que vemos hoje nas estradas é apenas o começo.

 

Monica Araya, fundadora e a directora-executiva da Nivela, lidera um grupo de cidadãos Costa Rica Limpia, é vice-presidente da Associação de Mobilidade Elctrica da Costa Rica.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
T
radução: Ana Laranjeiro

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mais votado alberto9 Há 1 semana

Quem defende a energia limpa, tem que ser sincero e dizer como é produzida a electricidade que faz mover os automóveis limpos. Podemos um dia orgulharmo-nos disso, mas para já a maior parte da electricidade é produzida a partir de combustiveis fosseis e a produção das baterias não é industria limpa, sejamos sinceros

comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

@alberto9, em Portugal 60% da eletricidade é produzida de forma limpa (eólica e hídrica). Na Suécia o número sobe para cima dos 80%!

alberto9 Há 1 semana

Quem defende a energia limpa, tem que ser sincero e dizer como é produzida a electricidade que faz mover os automóveis limpos. Podemos um dia orgulharmo-nos disso, mas para já a maior parte da electricidade é produzida a partir de combustiveis fosseis e a produção das baterias não é industria limpa, sejamos sinceros

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