Stephen  Roach
Stephen Roach 18 de maio de 2017 às 14:00

Um mundo virado do avesso

Um mundo virado do avesso, com um novo dinamismo no mundo em desenvolvimento a eclipsar o persistente mal-estar nas economias avançadas, é algo novo - mas não normal.

De forma lenta mas segura, uma economia global ferida e maltratada parece agora estar a livrar-se do seu profundo mal-estar pós-crise. Se as previsões mais recentes do Fundo Monetário Internacional se confirmarem - uma estimativa incerta, é verdade - o crescimento anual médio de 3,6% do PIB mundial esperado para o período de 2017-2018 representaria um ligeiro aumento em relação ao ritmo de 3,2% dos dois últimos anos. Uma década após a Grande Crise Financeira, o crescimento global está finalmente a voltar à sua tendência de 3,5% pós-1980.

 

Mas este regresso não significa que o mundo está a voltar ao normal. Pelo contrário, a ideia de uma "nova normalidade" na economia mundial ignora uma transformação extraordinária na dinâmica de crescimento global nos últimos nove anos.

 

A melhoria recente concentrou-se nas economias avançadas, onde se espera que o crescimento do PIB seja, em média, de 2% em 2017-2018 – uma melhoria significativa face à média anêmica de 1,1% dos últimos nove anos. A força relativa dos Estados Unidos (2,4%) deverá ser anulada pela fraqueza na Europa (1,7%) e, naturalmente, no Japão (0,9%). Contudo, espera-se que o crescimento anual das economias avançadas permaneça consideravelmente abaixo da tendência de longo prazo de 2,9% registada durante o período de 1980-2007.

 

Em contraste, o mundo em desenvolvimento continua a avançar a um ritmo muito mais rápido. Embora a taxa de crescimento médio esperada para essas economias em 2017-2018, de 4,6%, seja cerca de meio ponto percentual inferior aos nove anos anteriores, estes países ainda estarão a crescer mais do dobro do mundo desenvolvido. Sem surpresas (pelo menos para aqueles que não acreditam no cenário de aterragem dura da China) a força no mundo em desenvolvimento deverá estar concentrada na China (6,4%) e na Índia (7,5%), enquanto o crescimento deverá ser lento na América Latina (1,5%) e Rússia (1,4%).

 

Esta persistente divergência entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento atingiu agora um ponto crítico. De 1980 a 2007, as economias avançadas representaram, em média, 59% do PIB mundial (medido em termos de paridade de poder de compra), enquanto a quota combinada das economias em desenvolvimento e emergentes foi de 41%. Isso foi antes. De acordo com a última previsão do FMI, essas proporções mudarão completamente até 2018: 41% para as economias avançadas e 59% para o mundo em desenvolvimento.

 

O pêndulo do crescimento económico mundial balançou dramaticamente dos chamados países avançados para as economias emergentes e em desenvolvimento. Novo? Absolutamente. Normal? Nem perto. É um desenvolvimento impressionante, que levanta pelo menos três questões fundamentais sobre a nossa compreensão da macroeconomia:

 

Em primeiro lugar, não é hora de repensar o papel da política monetária?

 

A recuperação anémica no mundo desenvolvido ocorreu tendo como pano de fundo a desaceleração monetária mais dramática da história - oito anos de taxas de juro próximas de zero e enormes injecções de liquidez de balanços de bancos centrais amplamente expandidos.

 

No entanto, essas políticas não convencionais tiveram apenas um impacto limitado sobre a actividade económica real, os empregos da classe média e os salários. Em vez disso, o excesso de liquidez espalhou-se para os mercados financeiros, mantendo uma pressão ascendente sobre os preços dos activos e produzindo retornos desmesurados para os investidores ricos. Goste-se ou não, a política monetária tornou-se um instrumento de crescente desigualdade.

 

Em segundo lugar, estará o mundo em desenvolvimento finalmente livre da sua dependência de longa data do mundo desenvolvido?

 

Há muito tempo que defendo que as alegações de tal "dissociação" eram ilegítimas, dada a persistência do crescimento liderado pelas exportações nos países mais pobres, que amarra as suas economias à procura externa nos países mais ricos. Mas os factos mostram agora outra coisa. O crescimento do comércio global desacelerou para um ritmo médio de 3% durante o período pós-crise de 2008-2016 - metade dos 6% entre 1980 e 2016. No entanto, durante o mesmo período, o crescimento do PIB nas economias em desenvolvimento não se deteve. Isso mostra um mundo em desenvolvimento que é agora muito menos dependente do ciclo do comércio global e mais dependente da procura interna.

 

Por fim, a China desempenhou um papel desproporcional na remodelação da economia mundial?

 

O reequilíbrio chinês sugere que isso pode ser verdade. Historicamente, a bem-sucedida estratégia de crescimento liderado pelas exportações, juntamente com o rápido crescimento das cadeias de fornecimento globais centradas na China, foi a principal razão pela qual eu nunca acreditei na história da dissociação. No entanto, a quota das exportações no PIB chinês caiu de 35% em 2007 para 20% em 2015, enquanto a sua quota na produção global subiu de 11% para 17% durante este período. A China, o maior exportador mundial, pode muito bem estar na vanguarda da dissociação global.

 

Isso sugere uma tendência ainda mais poderosa: a rápida transformação da estrutura industrial da China. O sector terciário (serviços) da China passou de 43% do PIB em 2007 para 52% em 2016, enquanto a quota do sector secundário (indústria transformadora e construção) caiu de 47% para 40% no mesmo período. Ainda que a quota de consumo privado da procura agregada tenha aumentado mais lentamente, em grande parte devido à elevada poupança de precaução (que reflecte as lacunas na rede de segurança social), existem razões para optimismo nesta frente também.

 

Na verdade, o crescimento explosivo do comércio electrónico chinês assinala a adopção acelerada de uma nova e vibrante cultura de consumo, que as economias avançadas não tiveram num estágio semelhante de desenvolvimento. Nos anais da mudança estrutural, onde as transformações tendem a ser glaciais, a evolução da China é uma corrida.

 

Tudo isto nos fala de um mundo radicalmente diferente do que prevaleceu antes da Grande Crise Financeira - um mundo que levanta questões profundas sobre a eficácia da política monetária, estratégias de desenvolvimento e o papel da China. Ainda que existam evidências de uma recuperação da economia global de 80 biliões de dólares, o progresso precisa de ser visto de uma perspectiva diferente face aos ciclos passados. Um mundo virado do avesso, com um novo dinamismo no mundo em desenvolvimento a eclipsar o persistente mal-estar nas economias avançadas, é algo novo - mas não normal.

 

Stephen S. Roach, membro do corpo docente da Universidade de Yale e ex-presidente do Morgan Stanley na Ásia, é o autor de "Unbalanced: The Codependency of America and China".

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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