Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 12 de Dezembro de 2016 às 11:02

Um Novo Banco e um velho final

Uma dispersão em Bolsa do capital de um Banco é sempre uma boa notícia para o nosso mercado.
Está para breve a decisão sobre a venda do Novo Banco. O simples facto de ninguém se referir como a venda do "antigo BES" é sinal que o trabalho de mudança de imagem na instituição produziu alguns resultados. Infelizmente, os estilhaços resultantes dessa implosão ainda se fazem sentir e a venda confirmará os milhares de milhões de euros de prejuízo que isso vai causar ao nosso país.

A decisão tem que ser tomada até ao Verão do próximo ano, mas o Fundo de Resolução quer arrumar ainda este ano esta questão, até porque quanto mais próximo estivermos da data limite, maior pressão e menos poder negocial terá perante os potenciais compradores. Mas será difícil a António Costa convencer o BE e o PCP da urgência em vender o Novo Banco pois os partidos mais à esquerda acreditam que seria preferível encontrar uma solução em que o Banco ficasse sob a esfera pública. Olhando para o que aconteceu com a Caixa Geral de Depósitos, até me arrepio com essa possibilidade, mas nem a lei nem o PS parecem querer colocar essa hipótese.

Os dois principais candidatos à compra do Novo Banco também não agradam à extrema-esquerda. O Lone Star Fund é um fundo norte-americano que alguns designam como "abutre" pela sua forma de entrar nestes negócios, em que procuram apenas rentabilizar os activos no curto prazo para os vender a seguir, numa lógica de grande contenção de custos e da execução de créditos, o que pode causar uma grande instabilidade política e económica. Por outro lado, o Minsheng Financial é um fundo chinês, criado há apenas 2 anos e propõe adquirir 50% do capital e dispersar em Bolsa os restantes 50% e já sabemos a aversão que a extrema-esquerda tem ao mercado de capitais, quase como se fosse um local do demónio, símbolo do capitalismo selvagem.

Como devem imaginar, a minha visão é diametralmente oposta. Vejo os responsáveis políticos no nosso país a lamentarem a falta de visibilidade e dinâmica da Bolsa portuguesa, mas continuam sem surgirem medidas que invertam essa situação. Uma dispersão em Bolsa do capital de um Banco é sempre uma boa notícia para o nosso mercado de capitais. E isso não significa menor solidez da instituição pois o grande accionista estava encontrado e o mercado de capitais é uma excelente forma de outros accionistas de referência poderem aparecer.

Infelizmente, em qualquer uma das propostas, o valor de compra é muito baixo e ambos os compradores querem ser protegidos dos processos de litigância resultantes da resolução do BES. Depois do Estado português ter emprestado 3,9 mil milhões de euros para a recapitalização do Novo Banco, os contribuintes sairão de novo muito penalizados por todo este processo. Uma vez mais. Inventemos fundos de resolução ou outro qualquer mecanismo, no final do processo, a grande fatia das perdas será sempre assumida pelos cidadãos.

Na História da falência dos Bancos portugueses não há finais felizes. Os protagonistas são diferentes, o argumento também e os realizadores mudam. Mas o final é sempre o mesmo. E não é feliz.

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