Fernando  Sobral
Fernando Sobral 16 de maio de 2017 às 00:01

Um novo Portugal?

Ciclicamente Portugal vive à espera de alguém que surja vestido de D. Sebastião. Nada de admirar para um povo que passa a vida a ter de procurar fora deste país a possibilidade de sobreviver por incapacidade de as suas elites tornarem este sítio um local decente para viver.

"A Pátria" de Guerra Junqueiro simboliza este desígnio como poucos: "Joana d'Arc e Nun'Álvares, irmãos gémeos, redimem duas pátrias. Focos ambulantes de espírito divino, arrastam e vencem, magnetizando. (…) E a questão económica? Resolvida por si!" Para Junqueiro, Nun'Álvares era D. Sebastião. O certo é que, com vista para o mar e de costas para o interior, Portugal fechou-se. Por inércia, por incompetência, ou por falta de visão.

 

Vitorino Magalhães Godinho, o grande historiador, escreveu um dia: "Reparem nos painéis ditos de São Vicente: desde o século XV a finais do século XIX permaneceram inteiramente ignorados em Portugal. As principais obras com que Portugal abriu o mundo à Europa e ao resto do mundo permaneceram manuscritas até ao século XIX ou circularam em traduções inglesas, italianas, francesas, castelhanas. A nossa cultura permaneceu uma cultura oral, manuscrita. Basta dizer que se publicámos 2.000 títulos no século XVI, só a cidade de Lyon publicou 15.000." Não usámos a riqueza comercial do século XVI, nem o ouro do Brasil do século XIX para criarmos capital ou investimento produtivo. Esbanjámos, em vez de continuar a atrair os melhores artífices, cientistas e artistas até Portugal. Faltou sempre estratégia ou táctica.

O resultado recente foi a presença da troika entre nós, que nos tornou ainda mais tementes do destino. Não deixa de ser curioso o capital de esperança deste último ano, da vitória do Euro'2016 ao triunfo, em língua portuguesa, da nossa melancolia melódica num festival há muito decrépito. Mas isso serviu para perceber que há um novo ciclo, de risco, de identidade própria, de diferenciação e de fuga à ideologia da culpa e da pobreza. A cultura diferencia-nos. E traz orgulho a um povo que precisa mais do que sonhar com D. Sebastião.

 

Grande repórter

 

 

A sua opinião2
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Ricardo 16.05.2017

o que está a mudar em Portugal e bem, são as pessoas, que estão mais voltadas para viverem a sua vida em vez de andar a reboque de certes "coisas" decrepitas. Se cada um viver a sua vida o coletivo melhora e muito.

Anónimo 16.05.2017

gostei

pub